quarta-feira, 14 de outubro de 2009

sem titulo (Taiane Souza)

Isso praticamente resume boa parte do que nós, negros, somos hoje:
[pintada de dor e beleza] Belezas variadas e pouco valorizadas: Apesar de ter quem duvide, a mídia brasileira é o maior exemplo disso. Até hoje paro na frente da televisão e fico contando as(o) negras(o) que fazem parte de alguma novela e/ou algum telejornal (isso me deixa muito triste, ter que contar-las... mas infelizmente é a NOSSA realidade) enquanto isso perdem-se inúmeros rostos lindos, talentos inatos e corpos esculturais nas ruas, por aí, sendo garçonetes, vendedoras, etc. Não que isso a(o) desvalorize, mas visivelmente seriam, e deveriam ser, mais valorizadas quanto a beleza, isso não se tem como negar! Pintadas de dor da escravidão, das humilhações que nunca serão esquecidas, das surras, das marcas, da vida escrava, marcadas a fogo na historia da humanidade, das extradições mal sucedidas, vidas perdidas, povo dizimado, famílias destruídas, culturas, tradições e até reinados aniquilados. Pintadas de dor de ver quão poucas são as coisas que hoje restaram dessa devastação e de como são pouco valorizadas, na verdade boa parte delas são ridicularizadas ou menosprezadas pela sociedade como um todo, de ver que mesmo anos depois de ter sido abolida (abolição mal estruturada e muito bem sucedida digamos de passagem) a escravidão fincou raízes dentro da nossa sociedade intermináveis, da violência que cerca os guetos onde boa parte de nós vivemos, a dor de ver um filho envolvido no trafico, envolvido com mortes, sem emprego, sem educação nem futuro e a dor de ver como isso tudo esta ligado e pouca gente se importa, pouca gente percebe e tem verdadeira noção de que isso existe [consciência, ainda não existe.]!!
E mesmo assim, nossa influência está nas manifestações mais lindas em todo o mundo, principalmente nas artes, onde conseguimos (com muita luta) nosso espaço: na música com o Jazz, o Blues, o Rock, o Reggae, o Axé; na dança, no folclore de varias regiões no mundo (inclusive aqui), nos costumes, na língua portuguesa; no esporte como a capoeira; [ser dono da alegria, e generosamente dividi-las entre os filhos do preconceito.] mesmo diante de tanto sofrimento ainda somos nós que levamos essa Bahia para frente, com o pouco que restou da nossa cultura original, com as intervenções externas que elas sofreram, com toda alegria do mundo, com os olhos brilhando de dizer que somos baianos e brasileiros com orgulho e que a Bahia é linda [ser brasileiro duas vezes.]!
Ter que conviver com uma liberdade falsa, uma liberdade ao acaso, uma liberdade que nos limita, onde só se tem espaço com muita luta e perseverança, onde só os mais dedicados conseguem verdadeiramente se libertar, aqueles que aproveitam as brechas de oportunidade que a sociedade dá, as vezes até agüentando muita humilhação! [É gritar não aos nãos da vida]. ‘a espera da eternidade’; será mesmo que é só essa justiça que devemos esperar? Será mesmo que só a eternidade nos libertará de toda essa injustiça? Nada pode ser feito aqui? [ter a liberdade disfarçada de alma] .
É duro conviver com todas essas dificuldades, saber de todos esses poréns, de toda essa historia, é duro ter que enfrentar a realidade, perceber tudo isso é muito triste, porque mesmo para quem não quer enxergar a desvalorização negra na sociedade É UM FATO e o pior de tudo é que não é um fato isolado; nosso cabelo é desvalorizado, nossa beleza e características específicas também, nossa influência além de desvalorizada muitas vezes é camuflada. Por tudo isso é mais duro ainda ter que viver com o peso, a responsabilidade de honrar o esforço mútuo de todos os seus antepassados, além de tudo. Porque eu sei que se estou aqui, onde eu cheguei, foi através de muita luta, não só dos meus pais, portanto além de ter orgulho de tudo isso, tenho que fazer valer a pena todos esses esforços, aproveitar cada brecha de oportunidade para subir na vida e assim deixar um caminho atrás de mim, um caminho mais fácil de ser percorrido, um caminho que foi lapidado com muita dor e que hoje me da a oportunidade de dar frutos... e eu darei!! [Ser negro é ser quem sou eu...]

Taiane Souza

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