terça-feira, 12 de outubro de 2010

Presença eterna de severinos (Silier Borges)

Não costumo escrever sobre poemas, por um simples motivo: os poemas por si só já se esgotam, bebem de sua própria fonte, e o não dito requer um silêncio que é carregado de mistério e segredo. A arte de escrever contos ou poemas é necessariamente a habilidade (re)elaborar oriunda da predisposição inata mas com forte tendência adquirida que, brincadeiras à parte, requer não a facilidade da vã inspiração (como disse Drummond), mas o treino de ásperos marceneiros. Fazer poesia é moldar aço, dar forma ao amorfo, torna-se operário, enfim. É tal qual ter duas mãos e, para tanto, carregar o sentimento do mundo (parafraseando outra vez o Itabirano).

Evidentemente, não sou marceneiro e, muito frequentemente, estou suscetível às facilidades da leviana inspiração. Doravante, considero as singelezas do quotidiano, do café na rua, da criança ao passeio, da verticalização da capital, dentre outras frivolidades-relevantes, cruciais no desenvolvimento da arte poética. Eu, entretanto, estou ciente da fragilidade de minha poesia-espelho, que reflete forte tendência imitativa (alguns prefeririam o eufemismo 'inspirativa') da arte de João Cabral de Melo Neto, poeta que é flâmula nacional. Foi ele quem fez as clássicas estrofes regionalistas de "Morte e Vida Severina". Eu, honestamente desonesto, humildemente homenageio-o com as minhas tortuosas estrofes, em:



O que é a vida segundo os homens cotidianos

Essa vida severina
Débil vida, não é ida,
Não é morte, sina ou despedida.
Não é vida-partida.

Não é o platonismo amoroso
[dos românticos de finais-de-semana.

Ou a ferocidade pró-ativa dos
[Administradores contemporâneos.

Não pertence aos poetas consagrados,
[aflitos e mortos pela tuberculose precoce.

Poderia-se supor que essa vida, essa vida
fosse dos poetas românticos, consagrados pela
ferocidade contemporânea.

Suporia que a tal dessa vida
pertencesse aos Administradores platônicos,
pró-ativos aos finais de semana.

Ou à ferocidade da turbeculose que mata poetas,
conferindo-lhes o ar consagrado da poesia morta-platonista.

Embora vivos, a vida-virtude não vos pertence.

Esta só detém os Antônios Josés Pedros
de Jesus dos Santos dos Anjos
[sempre homens-sacros
Os quais trabalham das segundas aos sábados
Comem o pão dormido dos domingos às quintas
Reclamam da vida das terças às quartas
Amam as esposas nos dias úteis do mês,
Muito embora recorram às amantes nos dias corridos.

- Silier Borges

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