quinta-feira, 5 de maio de 2011

A LÁGRIMA DO MUNDO (Diego Pinheiro)

VELHO – Dessa vez demorou duas semanas para trazer o chá. Por que? As vacas estão mesmo cada vez mais longe... Logo o chá estará em extinção. Aí sim vamos chorar muito.

VELHA – As vacas estão realmente longe, mas não demorei por isso. (Suspira.) Eu caminhei observando o mundo, velho. Com isso comecei a pensar - coisa que não me dou muito ao luxo... (Pausa. Ainda olhando para o horizonte.) Ando chorando escondida... não sei de quem. Você poderia dizer que eu choro porque me sinto sozinha, mas não é isso. As lágrimas traçam o meu rosto por causa da vivência... O mundo me faz chorar, entende? Choro porque o mundo é mau, porque as pessoas são más e porque eu tenho uma forte tendência para a maldade. Você me entende? Não. Você não me entende... É ruim. É simples... É muito ruim. (Pausa.) Eu me isolo de mim mesma em algum lugar e verto lágrimas... mudas... só por pensar em gente. As pessoas estão juntas, mas individualmente. Você me entende? Aí você vê a hipocrisia brotar como uma flor brotando... uma flor má... Uma flor hipócrita. Mentirosa! Uma flor que berra asneiras... Por isso me irrito quando me falam de amor, quando me dizem que o mundo precisa de amor. Odiava quando minha mãe dizia isso, e quando minhas irmãs concordavam. O mundo não precisa de amor, entende? Você me entende? (Pausa.) Ninguém precisa de amor. O amor ainda é uma coisa que está longe... Muito longe daqui...(Diz com pesar.) Como os jovens... Ele não é emergencial... Não precisamos dele, entende? Você me entende? Não. Você não me entende. (Pausa.) Choro muito quando penso nisso... e começo a pensar em bobagens. E tudo começa a ficar falso... O meu choro é como um ponto de partida para eu me tornar humana. Começo a entrar em um estado de fraqueza. Você me entende? (Pausa.) O mundo só precisa de respeito... se não sempre que eu chorar voltarei para casa de bote.



Fragmeto da peça "Sobre os Palhaços na Varanda", de Diego Pinheiro.

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