terça-feira, 31 de maio de 2011

Manifesto a favor de uma atuação compromissada (ou pela Hora do Brasil)


Em primeiro lugar, gostaria de lhes trazer um desabafo, a despeito da linguagem impessoal que esse texto porventura possa vir a ter. Tenho contato com bastantes estudantes das mais diversas linhas teóricas e cursos, com os mais diversos discursos e depoimentos; alguns de universidade pública, outros de universidade privada, dos mais avançados semestres aos animados 'calouros'. Ao longo do meu pequeno percusso, conheci alguns profissionais, com as mais diferentes formações: Filósofos, Psicólogos, Administradores, Contadores, Advogados, Analistas de sistema, bem como professores universitários e secundaristas. Conheci também outros, que por razões diversas não alcançaram o ensino universitário, como guardadores de carro, faxineiros, porteiros, etc. Mas não preciso ir tão longe: acredito também que todos que leem esse texto possuem experiência semelhante. Poderia afirmar, sobretudo, que não se trata da identificação de um curso em específico e de estabelecer uma crítica dos estudantes que o integra, nem dos profissionais que atuam em uma dada profissão. Penso estar falando da atuação profissional enquanto coletividade.

Igualmente, não busco seguir o modismo de se criticar a atuação profissional no Brasil, ou na Bahia. Nem todos os brasileiros são iguais, bem como os baianos, salvo o espaço geográfico da qual compartilham. Aprecio na ciência a sua postura humilde, quando afirma que apenas podemos conjecturar a partir dos dados que temos disponíveis.

A questão que quero enfatizar é: a atuação profissional, seja ela qual for, me parece ir de mal a pior. As razões para tanto são várias, mas a pergunta persiste: porque isso acontece, se nunca antes na história da humanidade (parafraseando o bordão do Lula) a importância da democracia foi tão evidenciada, bem como se efetiva a difusão de um conhecimento que nunca antes esteve tão disponível, se ousamos comparar nosso século com todos os anteriores? Um filósofo bacana, otimista e humilde se perguntou sobre isso, e apresentou suas próprias razões: ele se chamava Karl Popper.

Mas as razões que me saltam aos olhos no meu cotidiano me parecem distintas das levantadas por aquele filósofo bacana, otimista e humilde. Sim, nunca tivemos tanto conhecimento. Ao mesmo tempo, poucas vezes fomos tão ignorantes. Parece um paradoxo, mas ao mesmo o tempo que o conhecimento se difunde, ele se concentra: ainda que se difunda o conhecimento das celebridades e outras banalidades informativas, o espaço de discussão do conhecimento academicista se reduz, ou não se amplia verdadeiramente.

O problema maior é: ninguém reflete mais. O cotidiano amortece nossos problemas sociais, a velocidade da informação amortece o conhecimento construtivo, os shoppings centers amortecem a degradação de nossas praças, os programas de domingo amortecem qualquer possibilidade de leitura e os jornais televisivos amortecem a violência que já não é mais, digo aos desavisados, urbana. Quero dizer, reflexão ainda é para poucos.

Acho que acabei fugindo do tema, mas sobretudo, dele busco me aproximar. A postura de isenção, com os teóricos pós-modernos, se tornou um mito, e o chavão de que "a imparcialidade não existe!" galgou espaços e muitas frestas. A consequência disso foi que ninguém mais ficou capaz de discutir algo sem estar disposto a ceder sua posição, afinal, "minha posição é minha posição"; logo, todo mundo está certo, já que "a imparcialidade não existe". Mas talvez a culpa não seja do pós-modernos, e sim de um fato histórico: se Sócrates foi condenado à morte lá na Antiguidade, isso se deve porque construir pelo debate se tornou em algum momento simplesmente impossível, intolerável.

O politicamente incorreto penetrou em espaços inalcançaveis e está na língua do povo. Tem gente votando em palhaços profissionais e em palhaços engravatados. Furar uma fila é bacana, afinal, que não quer passar na frente? Debater o espaço de inclusão das minorias políticas é ultrapassado, afinal, todo mundo é igual a todo mundo e as oportunidades são sempre as mesmas, não é isso mesmo? Para quê estudar, se nem o nosso presidente é formado? Religião e politica não se discutem. Veja bem, História não serve pra nada, e Filosofia é para usuário de cannabis, tendo em vista que com a qual e sem a qual tudo permanece tal e qual.

Quem já ouviu ou, até, repetiu uma frase assim, por favor levante mão: é mais fácil contar as mãos quando elas estão levantadas. É uma pena que o politicamente correto tenha se tornado demodê. A abertura democrática também abriu espaço para as tolices várias que pronunciamos, por mais anti-democráticas que sejam.

Somos, em geral, maus profissionais; não sejamos hipócritas, demagogos. A Constituição é bela e sua efetivação é fraca. Os Códigos de Ética das Profissões existem e são comumente ignorados. Os estudantes não estudam. Cinema é bacana, conversar baboseira também; na verdade é preciso. Mas a vida é muito mais, porque se constrói no social, e nos afastamos de seus problemas que são nossos também. Nossos pais, os que sobreviveram e que vivenciaram a saída de um regime ditatorial militar para um oficialmente democrático, bem como os que adotaram os valores de uma geração hippie, não conseguiram ensinar a seus filhos yuppies o senso de coletividade e os valores crítico-nacionalistas que aprenderam com a contra-cultura, e que os europeus souberam passar aos seus filhos. A Europa e a efetividade de suas leis trabalhistas, bem como sua qualidade de vida e eficácia das reivindicações de classe, vão muito bem, obrigado.

É por isso que acho que nossos pais estavam certos. Pelo menos quando nos ensinavam que é preciso querer algo "com a hora do Brasil".

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