quinta-feira, 12 de maio de 2011

O CONTO DO SER MORTO

“Aaaaahhhh...!” Ela abriu os olhos como se estivesse emergindo da água e se apoiado nas bordas de uma margem lamacenta depois de uma crise psicologicamente fluvial, onde Ela ingeriu um líquido não corporal causado por submersão. Ela... ficou um tempo deitada, os olhos ainda bem esbugalhados, fixos, para o teto, que parecia ser colorido, e que tinha alguns desenhos, que para Ela, lembrava a infância de sua tia-avó, há muito falecida, que morava em uma casa bem pequena e distante. Os desenhos mudavam de cor às vezes, dependia muito da luminosidade, seja do que vem de fora invadindo pela janela, seja do que vem de dentro da casa, provocado por Ela mesma, ou pelo que vem... de dentro... dela.
Ela começou a regularizar a sua respiração que tinha um ritmo peculiar 2/4, e pensou nesse determinado momento em não desbugalhar os seus olhos. Enquanto a sua respiração alcançava, por um esforço muito fisicamente difícil é verdade - pois mesmo se tratando de uma jovem Ela não era do tipo que fazia exercícios físicos e fumava em demasia, meditando sobre o tempo – Ela permitia que seus olhos se encontrassem com uma estrutura espelhada no teto, onde pode analisá-los com mais interesse. Negros e comuns, mas de um tamanho fora do comum. Percebeu que seus olhos bem esbugalhados a deixava diferente, e que, finalmente, poderia chamar a atenção na rua. “Será que devo sair pela rua com meus olhos esbugalhados?” Isso seria, em verdade, muito difícil para ela. Ela não suporta poeira, assim como não suporta academia de ginástica, correr demais nem pensar... mas tudo isso para Ela assumia um estado muito essencial para se viver e existir. O que faltava para Ela era algo como uma ventania bem forte. Decisão... não era para Ela, nem neste mundo, nem no outro.
Parou de brincar com a estrutura espelhada, que parecia desvendar muito dela mesma, e decidiu, por ter cansado de esperar alguém decidir, em olhar para o seu lado direito, que, de fato, não tinha ninguém a não ser uma estante, obviamente fora da cama e precariamente encostada na parede, feita pelo seu tio carpinteiro, irmão de consideração de seu padrasto, que tinha descendência australiana e tinha morado durante quinze anos em uma tribo aborígene, onde aprendeu a arte da carpintaria oceânica. Na estante tinha uns poucos livros os quais gostava de ler sempre, e uns poucos livros que ela nunca lerá, não se sabe bem o porquê. Sua cama era uma cama de solteiro pequena, mas suficiente para ela, pois não tinha estatura elevada e era bem magrinha, mas não dessas pessoas magrinhas que aparentam ser fracas fisicamente. Apesar de sua inércia física e psicológica, Ela tinha um corpo forte, raramente ficava doente.
Dessa vez decidiu se levantar e ir em direção da porta do seu quarto, o único ponto de escape, além da pequena janela, de sua casa. Abriu a porta sem a preocupação em mostrar o seu cabelo eternamente desgrenhado, que era curto, mas que Ela nunca conquistava o êxito de estar com ele bem penteado, pelo menos, em normalidade e harmonia com os outros cabelos nas cabeças das pessoas do mundo tudo. Pensava que isso, pelo menos, poderia deixá-la em pé de igualdade no mundo, e que, de repente, tivesse vontade de ler Kant. Ela estava vestida com uma calça muito grande pra ela, assim como uma camisa de botões listrada em preto e branco que não combinava direito com a estampa da calça, que tinha algumas garças de um verde que chegava a doer os olhos, em um fundo roxo. Isso, talvez, é ser existente.
Ao abrir a porta, ela se dá conta de que abriu uma porta para outra porta fechada, que está tentando ser aberta por um homem que, desesperadamente, deixa cair sua mala, seus objetos e sua pasta do trabalho. Ele olha para Ela desconcertado, e Ela olha para ele impassível, e impassível mostra a calça como um palhaço triste.
- Bom dia... – diz o homem sem jeito catando as suas coisas no chão. Ele se levanta com as coisas e tenta novamente abrir a porta, que finalmente se abre – Até... – diz Ele ainda desconcertado, e Ela mostra a sua camisa sorrindo amarelo, e a junção de seu sorriso e de seus olhos era de uma total desarmonia facial, tão grotesca, que o homem ao entrar em casa bateu a porta.
Ela tinha consciência de que seu sorriso não era a coisa mais linda do mundo, mas tinha a sua significância, ora, claro que tinha. Acima de tudo Ela sabia que não era muito atraente, mas também não era do time das jovens feias. Tinha um rosto em “V” e comum, um queixo até bem moldado e comum, seus olhos eram negros e comuns, seus cabelos eram curtos, pretos e comuns, suas sobrancelhas, grosas, negras e comuns, seu nariz pequeno... e comum, sua boca grande e comum. Acho que ela pode ser do tipo que um rapaz se interessaria depois de conhecê-la demais, a tal ponto de um saber muita coisa do outro – coloque uns seis meses aí... ou anos talvez. Ah... Ela tem um peito maior que o outro... e são comuns... A questão disso tem um trauma até: a última pessoa que os viu ficou tão chocada com a dissonância dos peitos dela que chorou durante muito tempo, e Ela, muito encarecidamente consolou a pobre alma, tentando esclarecer que as pessoas são diferentes mesmo, algumas tem peitos de tamanhos certinhos, outras tem peitos de tamanhos diferentes... A pessoa, inconsolável, foi para casa e escreveu O Ser e o Nada.
Ao voltar para o âmbito que Ela chamava carinhosamente de Grande Lar em 4X4X4, correu em direção da janela, onde, no para peito, tinha uma carteira de cigarros quase cheia. Tirou um e começou a fazer “aun”, em uma posição muito confortável para Ela... Começou a meditar sobre o tempo. Durante a sua visão de meditação Ela lembrou que quem viciara Ela foi sua mãe, uma mulher que tinha uma a cabeça maior que o corpo, e que tinha peitos de tamanhos iguais. Sua mãe fumava muito, demais, e toda vez que Ela fumava se lembrava de sua progenitora cabeçuda. Se perguntou onde ela estava... com certeza em uma missão para salvar muitas vidas... Não herdou o instinto paladinal de sua mãe... Não tinha vocação para salvar pessoas. Acha, sim, que herdou o instinto do pai, um homem muito grande, de ombros largos, mas que gostava de ficar sentado e ver propagandas de TV.
Geralmente, em todos os seus dias, e com um ânimo que decidia não mostrar para as pessoas, pois tinha medo dos olhos grandes em sua vida maravilhosa, Ela trabalhava. Chegava pontualmente às 09h:23min em um escritório que ficava situado em uma avenida muito movimentada. Era um estágio pra falar a verdade. Tinha decidido dar um tempo em sua faculdade... na verdade, na verdade o seu estágio não tinha nada a ver com os seus estudos em línguas anglo-saxônicas. Começou a pensar que fazer uma coisa normal... talvez... aí... Ela poderia se encontrar com uma essência radical. Mas hoje, Ela parece escolher não trabalhar e sair sem rumo com a sua bolsinha de mão e muito antiga, presente de sua tia-avó de infância maravilhosa.
A vista de sua janela não era tão privilegiada, “mas que era bonito ver uma parede de alvenaria muito bem construída, ah... isso é verdade!”, pensava nisso todos os dias quando meditava na janela.
Colocou de súbito a mão em sua barriga, e seus olhos olharam para cima sem precisar movimentar a sua cabeça. Experimentou, nesse movimento muito contemporâneo, esbugalhar os olhos e abrir a boca em demasia. Voltou ao seu estado normal.
- Deve ter sido alguma artéria insignificante. – disse Ela em voz alta para Ela mesma. Ah... a sua voz era languida, mas não tinha suavidade em sua dicção. Cantava horrivelmente mal, e já foi expulsa de um bar a porradas quando, muito bêbada e sozinha, cantou em cima de sua própria mesa várias músicas do Charles Aznavour. O seu peito menor ficou doendo durante dias. Durante o seu solo um dos garçons do bar a puxou de cima da mesa, fazendo com que ela desabasse no chão, e toda a população boêmia que ali se acomodava aproveitou para pisoteá-la, e o mesmo garçom, com uma vontade incrível, pisou no seu peito menor, fazendo com que ele diminuísse ainda mais. Chegou em casa chorando e cantando She.
Foi para o banheiro. Escovou os dentes pensando se poderia ser igual a sua mãe. Fez necessidades fisiológicas pensando se poderia encontrar alguém interessante. Tomou banho, pensando em colocar silicone no peito maior. Enxugou-se pensado se seu cabelo, em algum momento de sua vida, tinha sido igual aos outros cabelos de várias cabeças no mundo. Pensou, como uma pessoa que tem peitos de tamanhos diferentes pensaria. Vestiu a roupa mais normal que encontrou em seu guarda-roupa (outra obra-prima de seu tio australiano carpinteiro), mas decidiu por não colocar enchimento na parte do sutiã que cabia ao seu peito pequeno. Entendeu que a dissonância poderia ser interessante. Voltou para o espelho e decidiu pentear os cabelos, sem êxito, pegou uma boina para esconder aquela coisa medonha. Passou na bancadinha, perto de sua cama de gnomo, e pegou a bolsinha de mão, grande herança de sua tia-avó. Andou. Parou girando a maçaneta. Lembrou que não tinha comido nada. Mas de fato ela não tinha fome alguma. “Não tenho tempo para preparar uma torrada”, pensou Ela quando olhou o seu Grande Lar em 4X4X4. Com isso, se convenceu que não precisaria de um combustível para fazer o que queria fazer, saber o que fazer.
Creio que o que passava na mente dela era justamente estar sem rumo e a única coisa concreta que passou em sua cabeça, algo que podemos chamar de pura consciência, foi sair e trancar a porta. A partir dali ia respeitar todos os seus impulsos. “Agora dou um passo”, pensou ela... não... “o que está acontecendo?”. De subido, novamente, acariciou a sua barriga que estava revestida por uma blusa amarela e aveludada... fato, percebeu que nessa ação, não teve nenhum grau de consciência, ou do que poderia receber essa nomenclatura digna de ciência dura. Acompanhado disso, olhou para cima, e esbugalhou os olhos fazendo com que sua boca abrisse em demasia. Voltou ao normal.
- O que for será. – disse com toda a “impassividade” que um humano poderia sustentar em seu coração.
Começou a andar, e, realmente, Ela não se dava conta da ação puramente impulsional que era andar – os verbos são divinos. Ao chegar do lado de fora, Ela simplesmente parou, tirou sua carteira de cigarros da bolsinha e o ascendeu um. Mesmo quando estava em um espaço público, e sabendo que dali em diante ela correria o risco de dar mais um passo, os primeiros tragos do cigarro eram reservados a meditação, a meditação do tempo ou do seu tempo. Ali, nessas primeiras tragadas, exatamente três, Ela buscava entender o mundo e as pessoas. Afinal começou a pensar que entender as pessoas seria uma coisa interessante, e o mundo começaria a se tornar um paraíso. Se perguntou – em um parêntesis de seus pensamentos – se não seria incrível que os praticantes de meditação meditassem fumando, para simplesmente ver o ar ser materializado em sua frente. “Isso seria digno de um ato transcendental”, pensou sorrindo de forma grotesca - pois, como já sabem, seus olhos não conseguem acompanhar o desenho de seus lábios. O fato de meditar sobre o tempo fumando a colocava entre as pessoas que transcendem, ou seja, uma metafísica ambulante, como um vizinho seu costumava a chamá-la... “Metafísica Ambulante”. Ela sempre o via, sem camisa, na janela, a bisbilhotar a rua e principalmente uma barraquinha que vendia cigarros vagabundos – por sinal os que Ela mais gostava. Em um dia, em uma conversa com Ela, disse que esses cigarros davam inspiração para ele, para que escrevesse poesia, e, não se sabe bem o porquê, pois realmente ele é uma criatura das mais herméticas e niilistas, chamava a barraquinha do Juquinha de tabacaria. “Como assim?” Pensava Ela... "a barraquinha é uma simples barraquinha".
Depois das três tragadas, começou a andar sem pretensão alguma. Novamente, sem saber que respeitava seus impulsos, e, de repente, olhando as pessoas, percebeu uma gritaria, especificamente do seu lado esquerdo. Um homem discutia com uma mulher - de grandes braços... Pelo que ela percebeu, parecia sua esposa, mas também podia ser uma amante... mas podia ser uma amiga, porque não?! Não. A mulher era uma namoradinha, era jovem, apesar de braços largos e longos. O homem, o possível namoradinho, tinha o pescoço pequeno demais... e os braços curtos. Em um movimento que transcendia e explicava todo o mistério da vida, Ela descobriu o que poderia "ser parecer" para alguém... surgir, existir: A namoradinha, gritando asneiras para o namoradinho, o apontou com o dedo. Isso a deixou extasiada. Ser apontado era um ato de magnânima existência. Ela repetiu aquela imagem em sua mente milhões de vezes em menos de três segundos. Mesmo gesto, mesma asneira... A partir dali, o namoradinho existia para um mundo... e assim Ela descobriu que nunca foi apontada.
- Ser apontado é a fisicalização de uma repercussão que foi impedida de fazer algum mal em seu organismo... Logo a materialização é a prova de que você existe, se for apontado... em algum outro lugar... eu acho. – pensou Ela em voz alta, e andou pensando naquilo, ora.
Olhou para trás e viu que vinha passando um ônibus, desses pequenos e bonitos que parecem aqueles ônibus de brinquedo para crianças burguesas, e fez um sinal para que ele parasse. “É... os ônibus estão acostumados a existir.” Entrou. Pagou. E viu que só tinha um banco, para duas pessoas, vazio. Não gostava de sentar nesses bancos. Preferia sentar nos bancos para uma pessoa. Sempre que sentava nos bancos para duas pessoas, nenhuma pessoa sentava ao seu lado mesmo o ônibus estando cheio, isso fazia com que se sentisse ainda mais sozinha e responsável, sozinha, de sua vida. Sentou no banco que lhe cabia, e decidiu não se importar caso o seu lado direito ficasse vazio durante toda a viagem para um ponto qualquer, tentaria se distrair com a vista da janela. “A vida potencializa a solidão quando permite que o mundo se encha de pessoas”, pensou Ela negativamente... e isso fez com que se sentisse sozinha no mundo.
- Não me sentiria assim se não saísse de casa. – disse Ela para Ela mesma, triste e desafinada.
Para a sua surpresa um homem, juntamente com uma criança que aparentava ter seis anos de idade, sentou ao seu lado. O homem colocou a criança no colo. A criança tinha um ar de autista, ao mesmo tempo que falava muitas besteiras, e o homem, que era chamado de pai, tentava controlar a falação da criança fanfarrona. Ela olhou para a situação a sua direita e depois voltou o seu olhar para frente, aí sim sua mente começou a fervilhar... Começou a pensar em pingüins... isso, pingüins... Ela chegou a conclusão que até o mais idiota dos animais tinha um valor no mundo, uma representatividade... Ela... não.
O homem parecia estar inquieto, mas não com a criança e sim com a demora do ônibus. Ele tinha um nariz de romano e pontudo de tamanho enorme, e cabelos já um pouco grisalhos. Se a criança era realmente filho dele, deixou para tê-la depois dos quarenta... “Digna de pessoa cult essa atitude” pensou Ela.
- Mas que demora. – disse ele muito impaciente – Não vamos chegar nunca. – ele olhou para Ela e foi como se estivesse querendo puxar uma conversa, tipo dessas pessoas que não conhece a outra, mas devido a sua irritação ou observação filosófica da vida, ou da barraquinha de seu Juquinha, decidiu puxar assunto. Neste momento Ela sorriu, e tudo pareceu assumir uma idéia grotesca, pois como já dito, está criatura nunca aprendeu a sorrir devidamente, era um ser dissonante.
O homem estranhou na mesma hora, e a criança também, que neste momento, parou de falar e incomodar.
- Meu nome é Karin... Sheila... Michelle... Cibele... – estava se atrapalhando toda com a nomenclatura que ia se dar. A verdade de todas as verdades é que Ela não se lembrava da nomenclatura que a individualizara durante quase vinte e cinco anos de aceitação. Parou rápido e se livrou do grotesco sorriso. “Todos esses nomes me lembram prostitutas”, pensou Ela querendo se lembrar de um nome que a qualificasse como uma freirinha... não teve êxito.
- Meu pai me disse que Cibele é nome de prostituta. – disse a criança de maneira displicente. O pai não se incomodou com o comentário do filho e completou.
- Ora, releve. As crianças falam demais... – olha para o filho – principalmente esta. Mas se seu nome for Cibele, não há porque se preocupar, hoje em dia é uma profissão como qualquer outra, não é? – Ela abriu a boca para ‘retoricar’, mas não sabia se queria de fato explicar que não era uma prostituta. Ele suspendeu a sobrancelha como se esperasse o que Ela diria... mas não veio nada. Naquele movimento milimétrico pode entender muita coisa da vida daquele homem, que, além de ser pai, tinha uma mãe gagá e outro filho mais novo, um bebezinho, que nasceu com um nariz que sumia em sua face, só dando para ver os buraquinho da narina. Ele virou-se para a sua frontal... e ela também. A criança manteve os olhos nos dois, mas não disse nada.
O homem pediu o próximo ponto gritando para o motorista e Ela decidiu que também era um bom momento de sair. A criança, que acompanhava o pai as suas costas, parecia assumir uma normalidade, a normalidade que não tinha há alguns minutos atrás. Quando ambos desceram do pequeno ônibus o homem estranhou um pouco Ela estar as suas costas, sorrindo grotescamente e mostrando a sua blusa.
- Alguma coisa? – perguntou ele. Ela ficou impassível.
- Nada. – disse Ela. Ele olhou para os seus seios, e novamente levantou a sobrancelha milimetricamente... e Ela percebeu que ele tinha um irmão coxo. – Posso acompanhá-los?
- Não vejo porque não. Mas vamos ao supermercado.
- Que aventura. – falou com a máxima felicidade que lhe cabia naquele momento. – Um ato normal como qualquer outro.
- É... – disse ele levantando milimetricamente, agora, a sua sobrancelha direita. De certo uma façanha que explica a vivência.
Começaram a andar, mas o homem e a criança, inteiramente normal, não dialogavam com ela, fazendo com que se sentisse isolada intelectualmente. Pareciam conversar sobre a filosofia dos extremos, e que, em determinado momento de sua vida, Schopenhauer buscou uma paz dentro de si mesmo, devido aos seus fetiches zens budistas, uma paz que chegaria a qualquer humano na face da terra... o ato de...
- Ora essa... – disse em voz alta, e o homem, juntamente com a criança normal que defendia a filosofia schopenhaueriana com unhas e dentes (uma criança pessimista), pararam.
- O que foi, Cibele? – perguntou a criança com displicência, cheia de blazer.
- Nada.
Continuaram a andar, rumo ao supermercado... e Ela percebeu que de fato as filosofias poderiam salvar o mundo e as pessoas de um futuro terrivelmente eminente. A criança parou.
- Desde quando você tem peitos de tamanhos diferentes?
- Hã..?
- Desde quando você tem peitos de tamanhos diferentes? – Ela pensou.
- Acho que desde quando eles se apresentaram um tanto quanto protuberantes em meu plexo solar.
- Os seios sempre foram uma parte importante da anatomia da mulher. Eles representam a feminilidade, a satisfação de poder alimentar o filho e também não deixa de ser um alvo masculino. – Terminou a falação. Segurou a mão do pai. Continuou a andar.
Ela tocou em seus peitos, massageou os seus peitos... e talvez uma plástica resolvesse. Mas gostava deles assim, essa era a verdade. Correu para alcançar as duas criaturas.
Ao chegar em uma rua não tanto conturbada de pessoas, viu que, em alta velocidade, um homem vinha na direção da criança e do pai. Como um trem bala, que explica todas as nossas frustrações em termos de velocidade, o homem, em um total ato de destreza, pega a pasta do pai e sai correndo.
- Infelizmente fui assaltado. – disse o pai com impassivilidade mais que normal e mundana. Ela, em um ato de heroísmo, que lembrou a sua progenitora cabeçuda, correu na direção do assaltante, que parecia já estar cansado devido a corrida e se preocupou em correr mais rápido quando viu aquela criatura de sorriso grotesco correndo em sua direção. Durante a corrida Ela percebeu que seu peito maior agredia a sua condição física. Começava a tossir e respirar mal, mas não parava de correr. Segurou seu peito pequeno, como se quisesse sentir o seu coração, que batia em alta velocidade, e sorria quando percebeu que estava muito perto dele a ponto de segurar a pasta. Ela e o assaltante se entreolharam. Ela sorriu e seus olhos, em um esforço de alguns milésimos, quase se harmonizam com o desenho de seus lábios. O assaltante suava, e Ela, respirando fundo tentou puxar a pasta. Ele segura com força. Era um homem contra uma jovem magrinha e de estatura incomum. Ela segurou com as duas mãos, e ele entendeu que Ela começava a criar uma estratégia. O assaltante decidiu dar vários socos na cabeça dela, que sustentava as cacetadas com uma vontade missionária, digna dos espíritos inquietos e tenazes, mas que não eliminava a sua dor física e o amassamento de sua moleira. O assaltante decidiu parar de agredi-la quando observou, a partir do decote, os peitos dela. Ela viu a mira de seu olhar e sorriu novamente. Ele, com raiva, decidiu dar dois socos em seu peito pequeno, que pareceu diminuir alguns centímetros. Ela começou a chorar de dor, mas não largava a pasta de jeito nenhum, estava decidida. O assaltante, em um último recurso, concentrou toda a sua força em um soco, que tamanha a violência, atingiu em cheio o nariz dela, quebrando-o, Ela deu dois giros e foi projetada uns dois metros para o chão.
Ao se levantar, muito tonta, sangrando, com dor na cabeça e sentindo que ela tinha afundado, queimando algum lugar em seu cérebro (especificamente a parte que cabia a sua perícia com o anglo-saxonês), Ela percebeu que tinha a pasta em suas mãos e ficou feliz com isso... e olhando para o assaltante vitoriosa percebeu que ele apontava em negridão e ferro frio. Sorrindo, pois compreendia que finalmente estava sendo apontada, em uma harmonia que fez com que o mundo inteiro compreendesse que Ela existia, fazendo com que o Universo contemplasse o seu sorriso e que ele assinava a sua existência no mundo com uma beleza que permitia que “eu” não me preocupasse com o fim de tudo que é existente, pois ele, o sorriso, me explicava a filosofia da vida e que viver é bem mais além do que questionamentos universais, é simplesmente estar vivo. E depois de um som seco, soltando a pasta para segurar o seu ventre que enrubrescia, com um movimento contemporâneo, olhou para cima, sem precisar levantar a sua cabeça e esbugalhou os seus olhos que faziam um jogo com a boca aberta em demasia. Ela gritou... e o mundo descobriu que em outro mundo, no dela, ou nele mesmo, existiu uma prostituta chamada Cibele, e que tudo na vida é findado com um Deus ex Machina.




Diego Pinheiro
01 de Março de 2011

3 comentários:

  1. Rapaz não tenho palavras para decrever a minha satisfação em poder ler tamanha obra prima.

    mais uma vez agradesçoa deus o dia em que encontrei o seu blog por conhecidencia...

    VC é um genio da lieratura....

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  2. Obrigado!
    Eu fico honrado em participar desse blog também.

    Um grande abraço

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  3. Que bom o prazer de ter a mente revolucionada e sacudida, saltitante de uma curiosidade que não me pertence em absoluto. Viajando nas suas frases e cenários tão reais e impossíveis; por sua arte inquietante!

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