quinta-feira, 16 de junho de 2011

Homo Sapiens in Natura


O mundo sou Eu!

Lá fora caía uma chuva fina. Descia e se chocava suavemente com o chão, silenciosa e quase imperceptível, mas estava lá, moldando o contexto de frio que norteava aquele final de tarde. Ao longe, ouviam-se vozes de dois homens que formavam o contraste e ambos, a chuva e as vozes humanas, definiam o Todo. As duas realidades descritas não formavam dois contextos distintos, mas um todo unificado, pois os homens que falavam e a chuva que caía constituíam-se na mesma Natureza.

Houve um tempo em que a Natureza era apreendida pelo homem em toda sua magnitude e diversidade. O homem olhava-a através de um olhar respeitoso, quase místico, e admirava sua sublimidade, assustando-se, por vezes, com sua fúria. Integrava-se a ela e se sentia feliz por isso.

Todavia, outro tempo foi construído a partir da ideia de que devíamos forçar a Natureza a dar-nos as respostas que buscávamos. No pensamento do filósofo Francis Bacon encontra-se aquilo que seria o imperium hominis, ou seja, o império do homem sobre as coisas e sobre a Natureza. Apesar de Karl Marx afirmar na era moderna que a Filosofia tinha pensado o mundo e que, agora, era necessário transformá-lo, Bacon já propunha um ato de transformação da Natureza pelo homem por meio do conhecimento, tendo como finalidade o benefício próprio. 

Para tanto, a Filosofia devia servir também para aquilo que é prático e útil ao homem. Contextualizava-se assim o pensamento científico e o homem, por meio da ciência, na busca por respostas, submeteu a Natureza segundo seus métodos e suas regras. O homem montou a arena e observava as duas senhoras (a ciência e a Natureza) “lutando” e “disputando” o direito de revelar ou esconder o estar de cada coisa e esta luta exprimia por trás do humano desejo de conhecimento, o anseio de dominar e submeter, de subtrair e perverter. 

O homem criou um mundo à parte, isto é, o mundo social. Este é fruto de sua natural evolução. Neste universo criado pelo homem apresentavam-se as características necessárias para o desenvolvimento das potencialidades da sua consciência, da sua Razão e da sua inteligência.

No entanto, o estágio atual de degradação da Natureza revela o excesso da exploração do homem. E não falta na cidade quem sinta saudade da vida em sintonia com a terra, com a Natureza. Não só a poesia e a música falam da saudade do luar da “roça”, do canto do galo, do banho de rio, de andar com o pé na terra ou montado num cavalo. Este sentimento exprime muito mais que saudade por um estilo de vida com o qual se teve contato.

Este sentimento é a outra face em contraste com a qual se apresenta a vida na cidade, corrida, violenta, injusta e hipócrita. A cidade é Selva de Homens “Civilizados”. Que paradoxo! Toda tecnologia disponível, todo conforto e praticidade não escondem nem superam a saudade do mundo da Natureza. Tanto é que o turismo rural está nascendo com força total. 

Nesta forma de turismo, busca-se muito mais que belas paisagens ou apenas o contato com animais. Hoje ninguém quer nada pela metade, desejam-se tudo por inteiro. E o inteiro hoje só é possível mediante o desenvolvimento de uma visão e de comportamentos holísticos, integrando Homem, Ciência e Natureza. Visão e comportamentos ecológicos, vida mais plena. Ainda bem que há o ato de buscar. Quando pararmos de buscar, estaremos perdidos.

Adriano Santana.

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