segunda-feira, 20 de junho de 2011

Que América somos nós?

Estamos velhos. Não ancestrais, sábios e generosos. Estamos velhos, velhacos. Alguns querem fazer de Salvador uma cidade possível. Muitos não querem nada. Milhares nem sabem querer. Assistimos passivos à cidade trocar de pele, despida de sua roupa ibérica desde os anos 1960, e arquitetar-se, inteira, americana. Há muitas américas na América. As de formatação britânica, como os USA, atual império do planeta, e o miserável Haiti, vítima do colonialismo sanguessuga francês.

A nossa América brasileira, esse país tropical e luminoso por natureza, sofreu colonizações, com elegância, mas perdeu as armas de Jorge para a última. Sua arquitetura, seus hábitos, alguns péssimos, sua alegria de consumir está cada dia mais distante dos tupis- primevos, de estética saudável, costumes alegres, e dos colonizadores africanos, exuberantes e requintados. Estamos estadunidenses. Ganhamos dinheiro com o afro-negócio e gastamos com a madeinusa.

Entra-se em qualquer shopping, em Salvador, porque todos são iguais, e se atravessa o portal para entrar nos USA, sem passaporte, sem visto, com hora de entrar e sair. No tempo de ficar compra-se, assiste-se, consome-se. Estamos nos USA sem que os USA tenham qualquer despesa ou problema. Só lucro. A água, a energia, as relações de trabalho, velhas, macróbias, são locais. O lucro do royalty, do modelo, das bugigangas vai. Saídos da ilha continental dos shoppings, volta-se à Baía. O jovem que, dentro deles, usa lixeira, nas ruas da cidade se atualiza brasileiro e atira a lata de refrigerante pela janela.

Os serviços públicos e privados são péssimos. A conexão, sinal de contemporaneidade planetária, é cara e difícil. Os miseráveis não têm a menor chance de participar do sonho americano porque, por ausência quase absoluta de educação eficiente, o Brasil funciona como um sistema de castas: quem nasce miserável, morre miserável. E são responsáveis os que não fazem do País contemporâneo porque não sabem ou não querem. E os que assistem à derrama especulando sobre o fim do mundo, que acaba todos os dias apenas para aqueles que morrem. ¹

¹ Texto originalmente publicado por Tatiana Mendonça, no site Revista Muito/ Grupo A Tarde.


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