domingo, 10 de julho de 2011

República Brasileira e Canudos: mosaico

Três expedições do Exército da Recém proclamada (1889) República brasileira foram derrotados pelos Canudos (Bahia) em 1897. O duplo e consecutivo revés militar não recebeu muita atenção nacional, todavia, o terceiro causou medo aos dirigentes da República e desencadeou violentos atos contra os jornais e os jornalistas. À República brasileira coube a instituição e a legitimação dessas violentas investidas.
Jornalistas passaram a ser alvo dessas atrocidades após veicular nos jornais de então a notícia da derrota da terceira expedição e da morte do coronel Moreira Cesar. Em paralelo a isto, havia um desconforto com a República. A decepção com a República nascente não se restringia ao nepotismo latente. A República do Brasil frustrou a muitos e frustrou, sobretudo, porque anulou inúmeros sonhos de justiça social e igualmente porque começava a trilhar a ser conduzida por vias que não eram as desejadas por grande parte dos intelectuais brasileiros, dentre os quais, o Euclides da Cunha, autor de Os Sertões (1902).
A conexão que há entre a vitória de Canudos e os atos de violência sofridos pelos jornalistas do Brasil inspiram análise e reflexão. O decreto de Deodoro culminava com a pena de fuzilamento, pois o “crime” de imprensa era judicialmente assemelhado ao de sedição militar. A jovem República julgou que a os jornais e os jornalistas, ao publicarem a derrota do exército podiam desencadear a ruína da República Brasileira e, claro, fragilizar os cabrestos da massa que, espelhada em Canudos como vários países o fizeram com a Revolução Francesa, podiam se tornar um problema político.
Quais as conexões, as semelhanças e as interrogações que a violência sofrida pelos jornalistas em 1889 reserva para o presente e quais as lições que o mesmo sugere para o futuro? 
Virando a página e caminhando no tempo, aportamos no presente espelhado pela Democracia e gozando dos benefícios de uma imprensa livre. No bojo da luta pelo fortalecimento da Imprensa encontram-se os passos do desenvolvimento da mass mídia (mídia de massa). À época dos assassinatos dos jornalistas, os jornais não serviam a interesses econômicos e políticos como é hoje, mas se constituíam na expressão do sonho intelectual das cabeças pensantes do Brasil. Hoje, no mundo capitalista e neoliberal, a necessidade e a ganância por dinheiro, poder e influência submete a muitos. 
Percebe-se hoje que assim como o povo não devia saber dos fatos da derrota da terceira expedição em Canudos, em 1889, hoje, do mesmo modo, a plebe continua sem saber (conhecimento) e isto se dá não mais porque os jornais são saqueados, atacados e destruídos, mas porque atualmente infelizmente a mídia serve a muitos interesses de uns poucos. Da plebe se esconde os fatos, se camufla os dados, se corrompe o “como” para evitar o “por quê?”. Hoje, o simulacro é o poder (Chauí). Na contramão do macro controle midiático está a internet com as infinitas possibilidades de interações, de versões de fatos/atos e dos inúmeros modos de favorecer ao usuário na construção de sua síntese da realidade mundial e local.
No entanto, cumpre lembrar que há sim a camuflagem, a corrupção das verdades difundidas e a manipulação dos fatos para que sirvam aos interesses de quem controla e conduz a mass mídia. Mas, há também a descrença, o desinteresse e a alienação do povo que já foi adestrado durante inúmeros anos para ser "ah! sim". A plebe deseja Saber (conhecimento)? O povo anseia pela posse do Saber? Se a realidade nos oferece evidências de que o povo não está interessado no Saber é porque foi corrompido (Rousseau) e adestrado para não desenvolver o interesse pelo conhecimento, pois, por natureza, o homem desejar o conhecimento (Aristóteles).





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