segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Entrevista RENAJUNE: Margareth Menezes


Sempre muito educada e com a simplicidade que lhe peculiar Margareth Menezes, concedeu entrevista ao RENAJUNE, falou sobre família, carreira, política, deixando claro seu orgulho de ser brasileira e baiana resultado da sua identidade cultural.
“ Eu canto a música popular brasileira em sua dimensão cultural e artística. A minha identidade artística é formada dentro desse caldeirão cultural que é a Bahia e o Brasil. Eu seria burra demais se não aproveitasse esse poder de aglutinação da música afro pop brasileira, moderna e transcendental, que pulsa em mim, e se não me comunicasse além das fronteiras da cor da pele.” (MENEZES, 2011)

(RENAJUNE): Quem é Margareth Menezes, pessoa, mulher?
(MARGARETH MENEZES): Eu sou alguém que crê em Deus, nas forças da natureza e no estudo da força espiritual do homem. Estou na vida lutando para melhorar como ser humano, procurando sempre compreender um pouco mais do porquê da existência das coisas, em todas as direções do universo que me cerca. Questiono os acontecimentos e procuro conhecer os antecedentes das histórias, mas quero a realidade, com seus prós e contras. A história da humanidade e seus desdobramentos é muito mais profunda. Hoje podemos ter acesso a muitas informações e correções de fatos históricos importantes.
Profissionalmente, procuro fazer o melhor na quilo a que me proponho.  Como mulher, venho me descobrindo e conhecendo com mais atenção a minha história. Gosto de ficar em casa e gosto das coisas simples da vida, de ver a natureza, de ouvir os passarinhos. Sou encantada pelo mar.  Amo, amo, amo cantar, e defendo tudo que se faz para representar a nossa música e a nossa cultura.
(RENAJUNE): Quando surgiu o gosto pela musica? Sua família também tem esta característica musical?
(MARGARETH MENEZES: Sim, minha família tem muito a ver com o meu gosto pela música. Meu avô por parte de mãe se chamava José e tocava violão. Já meu pai, Adélicio (que era um negão de tirar o chapéu) e meus tios sabiam fazer mágicas. Meu pai e minha mãe, inclusive, adoravam música. Lá em casa tinha um aparelho de som bacana, que acho que meu pai levou anos para terminar de pagar. A gente ouvia muito samba e forró, Clara Nunes, Dicró, Noite Ilustrada, Martinho da Villa, Luiz Gonzaga, Marinês e Sua Gente, Jacson do Pandeiro, Moreira da Silva , Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Ângela Maria e muitos  outros. Tive um contato muito intenso com a música durante a minha infância. Aos quinze anos, ganhei meu primeiro violão. Além disso, a rua onde eu cresci, na Península de Itapagipe, em Salvador, tinha muitas serenatas, além das festas de largo.
 (RENAJUNE): Na época, depois de matérias nos jornais The New YorkTimes, LeMonde e Washington Post, Você foi apelidada pelo Los Angeles Timesde “Aretha Franklin brasileira”, o que significou essa comparação para Você?
(MARGARETH MENEZES): Essa comparação foi feita há mais ou menos uns cinco anos. Realmente é bom ser referenciada com uma expressão positiva, de alto padrão internacional. Isso fortalece e ao mesmo tempo traz mais responsabilidades para o trabalho que desenvolvo.
(RENAJUNE): Além de inúmeros prêmios, como os Troféus Caymmie Imprensa, Você conquistou algo não tão simples para artistas brasileiros: o reconhecimento internacional. O que significou isso pra você, para sua carreira, e sua identidade feminina negra?
(MARGARETH MENEZES): Isso significa para mim como artista, uma conquista muito valiosa. É o resultado de uma direção que eu fui descobrindo aos poucos. É a afirmação de um desejo de representar o melhor de nossa cultura, mostrando sua beleza e exuberância, e buscando a superioridade da força cultural da afro brasilidade. Mas nada caiu do céu. É claro que contei com a força de algumas pessoas que me abriram as portas. Primeiro, Djalma Oliveira, que me convidou para gravar Faraó. Depois, Alcione, Martinho da VIlla, Gilberto Gil, Elba Ramalho e David Byrne... eles foram os primeiros artistas a falarem de mim, fora os empresários e amigos na Bahia. Eles viram o meu talento e não a cor da minha pele.
Isso, para mim, foi uma grande oportunidade porque eu soube aproveitar e aprendi a promover limites entre o meu ambiente profissional e pessoal e também na temática e na estética. Aprendi a estabelecer um padrão de qualidade que, a julgar pelo reconhecimento que tenho nas apresentações que faço e pelo número de shows que já fiz e continuo fazendo dentro e fora do Brasil,  vem dando certo. Tudo isso veio também pelo perfil embasado do Afropop Brasileiro, que abraça desde o samba ao samba reggae, passando pelo ijexá, chula e outras misturas com comportamento afro e sonoridade e tendências pop.
A minha consciência transcende as fronteiras da cor. Aprendi a não me colocar como menor ou maior, aprendi com a vida a saber que eu tenho um lugar e que eu tenho meus direitos e deveres. Costumo dizer que estamos fazendo nascer uma juventude afro brasileira ascendente. Essa ascenção pode ser construída na luta, competência e inteligência. Não estou aqui falando na necessidade geral que todo mundo tem e precisa de estudar, estou falando daqueles que desejam postular cargos de direção e comando nesse pais. Para estar entre os melhores, é preciso agir com garra e determinação. Conheço políticos e empresários negros pelos quais tenho muita admiração e respeito pela história de luta.
Hoje, os jovens negros estão tendo muito mais oportunidades do que na época em que eu estudava. Hoje, com todas as reclamações e desmandos, é muito mais fácil um jovem negro ser reconhecido do que antes. Ainda não é o ideal, mas já se pode chegar mais perto. Isso graças as lutas dos que vieram antes. É preciso sempre reconhecer que nada vem de graça, tudo se conquista. E eu acredito muito na força dessa rapaziada nova que está se apresentando no Brasil. Em uma equação: Atitude+Inteligência+Democracia = Novas Conquistas.
 (RENAJUNE): O Bloco Os Mascarados foi um marco na sua carreira e no Carnaval da Bahia, sobretudo pelo resgate dos velhos carnavais. O que consolidou seu afastamento desse projeto?
(MARGARETH MENEZES): O projeto não focava no resgate dos velhos carnavais, mas sim no resgate da fantasia e das alegoria no Carnaval Baiano. Com a consolidação do projeto Os Mascarados (depois de dez anos de trabalho) e a criação do Movimento Afro POP Brasileiro, resolvi centrar minha participação no evento carnavalesco em uma única direção. Escolhi o Movimento Afrp POP Brasileiro porque estava mais na linha dos desdobramentos que eu quero ter na minha carreira. Eu, como artista, tenho essa inquietude, graças a Deus! É o movimento que me alimenta, o desafio, a transformação do pensamento e a evolução na maneira de viver a arte. Não é o que eu produzo que me comanda. Sou eu quem direciono o que produzo. E isso eu aprendi observando os artistas que admiro. O apego a um  projeto pode significar estagnação. Tenho muitos projetos para colocar em pauta na minha carreira. Sou livre para realizá-los e assim permaneço.
(RENAJUNE): A Fábrica Cultural é um projeto social criado por você na Cidade Baixa de Salvador. Como surgiu essa idéia?
(MARGARETH MENEZES): Da minha própria experiência de vida. Tudo para mim mudou através de um projeto artístico da Fundação Cultural, que, em 1982, trouxe aulas de teatro para escola onde eu estudava, o Centro Integrado de Educação Luiz Tarquínio. Conheci o professor Reinaldo Nunes e daí tudo mudou para mim. Foi uma grande transformação não só na minha vida, mas em toda a comunidade.
Depois, no caminho da vida, encontrei pessoas que também começaram a sonhar o mesmo sonho. Por isso, estamos funcionando com a Fábrica Cultural há alguns anos. Ainda somos um embrião daquilo que queremos ser, pois existe coisas que não dependem só da gente.  Estamos aguardando, há anos, a liberação de um espaço já compromissado pela Prefeitura, mas que ainda não foi efetivado. Queremos proporcionar mais conforto aos jovens e concentrar nossos pólos de estudos em um só lugar. Por enquanto, estamos funcionando em três lugares. Não é muito confortável para o rendimento dos jovens, mas tenho fé em Deus que nós vamos conseguir. O mais importante é que temos gente competente querendo trabalhar.
(RENAJUNE): Por que você escolheu a Ribeira, como cenário de imagens do seu último DVD, o Naturalmente Acústico?
Por que Ribeira faz parte da minha história. Meus tios e avós quando vinham de Ilha de Maré trazer mercadoria nos saveiros, descarregavam na Ribeira. Minha família toda está espalhada por Itapagipe. A família de meu pai também é de lá. Na minha infância, moramos nos Alagados, na Madragoa, na Boa Viagem, no Largo de Roma, na Vila Operária. E sempre a mariscada era na maré boa da Ribeira. Que beleza.
(RENAJUNE): Você é uma artista com identidade cultural bem acentuada, que difunde a cultura negra pelo mundo. O que significa o movimento AfroPop Brasileiro em sua vida profissional?
(MARGARETH MENEZES): Eu canto a música popular brasileira em sua dimensão cultural e artística. A minha identidade artística é formada dentro desse caldeirão cultural que é a Bahia e o Brasil. Eu seria burra demais se não aproveitasse esse poder de aglutinação da música afro pop brasileira, moderna e transcendental, que pulsa em mim, e se não me comunicasse além das fronteiras da cor da pele.
Quando estive no Senegal, no Porto de Gorée, de onde saíram milhões de pessoas escravizadas e vendidas para os brancos, pude ver um pouco mais além do que a questão da cor da pele. Quem era que vendia os prisioneiros para os escravagistas? Se havia uma guerra, que predia vira posse do outro.
A história da humanidade é muito complexa, tem muitos relatos que mostram que a luta pelo poder de dominar o outro, está entre todos os povos. É preciso ir mais além na história da humanidade para a gente saber pelo que realmente estamos lutando. Eu luto contra esse sistema de descriminação racial e não contra as pessoas que tem a pele branca, eu luto contra aquele que me ofende, alguma coisa muito maior quando busco defender a bandeira da paz entre as pessoas.
Não tenho tendências discriminatórias no meu canto, no meu sentimento e muito menos na minha maneira de tratar as pessoas. Eu quero e acredito na união. Quando me sinto discriminada, me posiciono com meus direitos de cidadã. Acredito na força da democracia e sei que ainda não estamos como queremos, mas vamos conseguir.
Não sei se viverei para ver, mas acredito demais na força desse povo afro brasileiro, que se distingue do africano nativo pela expansão esfuziante da sua alegria e da sua ternura simples no jeito de sorrir.
Sempre que falamos em África, temos a tedência de pensar que é um pais, mas, o continente africano tem 54 paises, uma infinidade de cultura e arte e uma força que está impreginada ma história da humanidade. O fato de a história da África não ser ensinada nas escolas faz com que não tenhamos dimensão das colaborações que já foram trazidas de lá. O povo afro descendente espalhado pelo mundo, com certeza, fez e faz a diferença. Convivendo em toda parte, com todo o sofrimento, fica mais facil combater a descriminação. A mulher afro brasileira, por exemplo, mesmo com toda essa descriminação e desigualdade, é muito mais feliz do que a mulher que vive em alguns países da África. Não tenho a menor dúvida sobre isso. O estupro em massa e os maus tratos físicos a que são submetidas as mulheres negras em algumas nações africanas, como as mulheres em um pais chamado Kivu, são realmente assustadores.
(RENAJUNE): Quando e como surgiu o convite para estrear como colunista da “Magazine”, na Folha da Cidade Baixa – jornal com sede na Ribeira, que circula na Península Itapagipana e em cidades da Região Metropolitana de Salvador e do Recôncavo Baiano?
(MARGARETH MENEZES): Eu gostei muito de saber que existia estes dois veículos de comunicação na minha querida Itapagipe e quis participar. Meio que me ofereci e eles aceitaram. Quem tem boca vai à África do Sul e, se for inteligente, vê Mandela.
(RENAJUNE): Vivemos em um País de desigualdades sociais e raciais, você acredita que este cenário pode ser modificado? Como poderemos contribuir para essas mudanças?
(MARGARETH MENEZES): Vivemos numa democracia que vem se afirmando cada vez mais. Acabamos de ter um presidente que há 25 anos era um torneiro mecânico e não tinha segundo grau completo. Então, podemos dizer que Lula é uma exceção? Mas e todos os outros políticos que vieram  e, assim como ele, foram também trabalhadores de pegar nas máquinas. Jaques Wagner, governador da Bahia, foi operário no Pólo Petroquímico de Camaçari; e outros, que estão atuando no primeiro escalão do governo, também. Nossa presidenta sofreu com a tortura nos porões da Ditadura. Eu tenho comigo um positivismo e uma fé na força transformadora do ser humano: quando ele quer de verdade, ele consegue.
Penso que a transformação  das desigualdades sociais depende das ações políticas e da cobrança da sociedade. Em relação às desigualdades raciais, depende da iluminação na consciência  de cada um que busca essa transformação. Compreendendo que todos somos iguais perante a Deus e reconhecendo os deveres e direitos comuns a todos os cidadãos, só podemos produzir uma sociedade mais desenvolvida, humana e, tecnologicamente, e isso produz progresso limpo e positivo.
(RENAJUNE): Você é a favor da criação de um partido político negro?
(MARGARETH MENEZES): Não acredito em nada que seja radical. Para mim, o que pode trazer a transformação não é a cor da pele, mas sim a qualidade e a força das ações transformadoras. Pode sim haver propostas que se concentrem em mais conquistas para as comunidades afro brasilieras mais necessitadas, mas não podemos correr o risco de colocar o negro no lugar de incompetente diante de uma democracia. Se houvesse um partido que só pudesse entrar gente branca e que não fosse permitida a entrada de negros, isso seria motivo para mover uma ação criminal. Da mesma forma ao contrário. Estamos lutando contra a descriminação racial ou estamos querendo repetir os erros do passado? Não se conquista a igualdade repetindo os exemplos negativos que repudiamos e que só fazem alimentar o ódio e a intolerância. Prefiro aprender com Nelson Mandela e Barack Obama, que têm um grande exemplo de consciência e luta pela paz. Vejo neles exemplos superiores.
(RENAJUNE): Para finalizar, a equipe RENAJUNE gostaria de saber, Qual a melhor memória, que você guarda destes 25 anos de carreira e qual mensagem você deixa pra nosso publico jovem negros?
(MARGARETH MENEZES): A força transformadora da juventude é uma jóia preciosa, não importa a cor da pele. Na minha época, eu tinha amigos de todas as raças. Todo mundo estudava na mesma escola. Às vezes, saíamos juntos e nunca deixamos que esse conceito de cor de pele estivesse antes da amizade. Era todo mundo da mesma rua, do mesmo bairro. Isso já nos unia. E nós fizemos muitas coisa bacanas na nossa rua, na nossa comunidade.
O que precisamos ter é consciência da necessidade de transformar essa realidade hostil de pobreza, perseguição policial e descriminação injusta que atinge o povo de maioria negra. O jovem  afro brasileiro de hoje tem muito mais oportunidade de traçar sua trajetória  de ascensão social do que antes. Tudo está muito mais à disposição do que antes, mas também não é de graça. Temos que lutar, que conquistar nosso espaço com dignidade e competência.
Hoje, pela urgência de formar mão de obra de qualidade em todo país, estão sendo disponibilizados vários cursos, em vários setores da indústria e do comércio. Acho que as coisas mais importantes para os jovens que querem transformar a realidade social são: 1) se munir com ferramentas, fazer os cursos que estiverem ao seu alcance, formar currículo; 2) não ter medo de enfrentar dificuldade e se dedicar; 3) ter uma postura positiva perante a vida.
Se a gente sofre não fazendo nada, é muito melhor que esse sofrimento se visto como uma otivação para a gente transformar a realidade da gente, e procurar não somar com o mundo das contraveções, que tem endereço certo e vida curta, ou seja a cadeia e a cova. 
Mesmo com todas as dificuldades do passado, foi possível produzir mudanças nítidas nesse país, graças as lutas de outros jovens negros que se comprometeram com suas vidas na direção dessas conquistas.
Tem uma parcela da sociedade brasileira que não se manifesta, mas que também apóia as mudanças positivas. O brasileiro gosta de festa, de fartura e de alegria. Isto está impregnado na alma genuína do povo dessa terra. É só observar. As coisas no Brasil só se transformaram nessa velocidade porque  grande parte do povo brasileiro aceitou. Há uma tendência no inconsciente coletivo do brasileiro de querer ser uma nação de todas as raças.  É uma mensagem subliminar que está impregnada na cabeça desse povo, que foi amplamente trabalhada na época da Ditadura para mascarar todo o processo que o pais estava passando. Se você sorriu, você é ganha voto. Se você não sorriu, você pode não ser tão votado assim. Precisamos entende r por onde se atinge a representação simbólica da linguagem subliminar no comportamento humano, mas ai já é outra entrevista! Uma mudança social se faz com poucas cabeças e boas idéias que atendam às necessidades coletivas, gerando resultados e positivos em direção ao progresso social e ao bem comum, apartir dai, teremos um exercito a favor da justiça e da paz. 
Beijos todos esses rebentos lindos da minha amada terra.
Afro urbanicidade no pensamento e comum unidade no coração. 
Valeu, Margareth Menezes.

4 comentários:

  1. Sinto-me muito orgulhosa por essa entrevista. Jr Borges esse meritos é nosso!!

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  2. Parabéns ao blog Renajune por mais uma vitória!! Isso representa uma das muitas que alcançarão!!

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  3. Essa é uma vitoria do nosso grupo, que esta cada vez mais comprometido com a produção e divulgação desse conteúdo de qualidade, fico feliz por estamos alcançando níveis tão notórios e espero que possamos crescer ainda mais... Parabens a vc´s blogueiros...

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