terça-feira, 30 de agosto de 2011

Musa Negra

MUSA NEGRA


CORREIO BRAZILIENSE - DF
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Cria da Cidade
Sérgio Maggio


Por Sérgio Maggio


Musa Negra


Cristiane Sobral enche a boca para falar de suas qualidades como mulher negra. As palavras não saem como um discurso inflamado de ativista. Soam com a mesma força, mas penetram suavemente aos ouvidos atentos de quem assiste à performance.

Não lavo mais os pratos/ Li a assinatura de minha Lei Àurea/ Escrita em negro maiúsculo, em letras tamanho 18, espaço duplo/ Aboli/ Não lavo mais os pratos/ Quero travessas de prata, cozinha de luxo e joias de ouro/ Legítimas/ Está decretada a Lei Áurea, recita Cristiane, abrindo os braços para a liberdade diante da câmera do Cria da Cidade.

Cristiane Sobral é um orgulho. Atriz, poeta, professora, escritora, menina dedicada desde pequena aos estudos, fez história ao entrar no bacharelado de artes cênicas da Universidade de Brasília (UnB) aos 16 anos. Foi a primeira atriz negra a se formar naquela instituição. Em salas de aula, o papel era questionador. Não queria fazer a personagem serviçal ou que se presta ao deleite sexual, tipos comuns dado às intérpretes negras.

Por que eu não posso fazer a Julieta de Shakespeare? Comecei então a perguntar sobre os negros da nossa dramaturgia: Abdias do Nascimento, Solano Trindade. Ninguém sabia. Levei essa discussão para dentro da academia, lembra.

Formada em 1998, Cristiane Sobral é responsável por articular o primeiro grupo de atores negros do DF, o Cabeça Feita, que foi para Angola, em 2004, reinaugurar um teatro que estava sem funcionar havia 28 anos. Em recitais ou coletâneas de artistas negros, ela se impõe por articular simultaneamente as condições de ser mulher e negra. Quem viu sabe do que a equipe do Cria da Cidade presenciou às vésperas do Dia da Consciência Negra.

Acredito que minha arte inquieta as pessoas, avisa Cristiane Sobral.

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