terça-feira, 30 de agosto de 2011

Senhora Liberdade


Primeira atriz negra formada na UnB, Cristiane Sobral fala com o Correio

Sérgio Maggio

Publicação: 11/08/2011 09:58

(Paulo de Araújo/CB/D.A Press )

Cristiane Sobral é referência nos estudos da mulher e da arte negra no Brasil


A atriz Cristiane Sobral e o grupo teatral Cabeça Feita aterrissavam em Luanda em 2004 e havia gente ansiosa para ver os artistas no aeroporto. Curiosas, as pessoas comentavam sobre o texto da peça Petardo, que abriria as portas do Teatro da Liga Nacional Africana, depois do tempo fechado de guerra em Angola. O marketing em outdoors, em torno da companhia brasiliense, era tanto que carrões, daqueles que nem se veem em filmes, buscavam os intérpretes hospedados numa mansão de um embaixador sueco. Para coroar a situação, cada ator ganhava um cachê de US$ 4 mil por duas semanas de trabalho. Era o paraíso na vida dessa mulher guerreira, sempre chamada à batalha, às vezes de vida e de morte, para assegurar a liberdade.

— Ao longo da minha história, tive que conquistar muitas alforrias. Ali, em Angola, era uma maravilha.

Nascer foi a primeira luta de Cristiane Sobral. O passado nebuloso é formado por pedaços de histórias remendados um a um. Até hoje, mulher feita, ela não conhece os pais biológicos nem sabe como parou nas mãos do casal que a adotou. O que sabe vem de uma narrativa incerta. Um dia, uma enfermeira ouviu um choro de bebê e correu para a lata de lixo da casa de saúde paulistana. Lá, encontrou o bebê abandonado. De imediato, pensou numa família negra que não podia ter filho. Pegou a garotinha, voltou para o Rio e seguiu para a periferia carioca.

— Mas o casal tinha acabado de adotar uma menina. Aí, ela passou de casa em casa, com aquela criança em mãos, até chegar à residência de uma de suas melhores amigas, que olhou a garota, mostrou ao marido e quis adotá-la. Minha mãe, uma professora e líder comunitária, me enrolou num paninho e inventou, no cartório, que teve o bebê em casa.

Cristiane cresceu estranhando a família. A mãe era branca, o pai negro e os irmãos, miscigenados. Era tratada como uma boneca pela mulher de forte preocupação social. Evangélica, a senhora a colocou numa escola da igreja e a menina crescia em ritmo de aprendizado surpreendente. Não gostava de televisão, mas já brincava de teatro. Entre o relicário da infância, guarda uma foto de uma peça da igreja, na qual fazia o papel de flor.

— De repente, minha mãe morreu e a minha infância foi interrompida. Meu pai se entregou ao alcoolismo. Perdi a bolsa na escola evangélica e estava esquecida, sem referência dos familiares dos meus pais.

O perigo rondou a menina, que foi morar com um irmão numa periferia violenta do Rio, despertando o interesse sexual de um traficante. Ela, com 10 anos, ficou com medo, pediu socorro a outro irmão, que a resgatou e, posteriormente, a trouxe a Brasília. Aqui, estudou em colégio público e convivia com uma pesada vida doméstica.

Aos 16 anos, terminei o segundo grau e meu irmão me deu um cheque para fazer a inscrição no vestibular de jornalismo. Queria artes cênicas, mas não tinha dinheiro para pagar a taxa da prova de habilidade específica. Na fila, comentei isso com um desconhecido e ele tirou o dinheiro do bolso e pagou para mim. Nunca mais o vi.

Dali a pouco, Cristiane Sobral estava vivendo o sonho de ser atriz. Sem saber, construía a história daquela instituição ao ser a primeira intérprete negra formada pela UnB. Lá, começou a ganhar o primeiro dinheiro e conseguiu uma vaga para morar na residência universitária. Pegou as coisas da casa do irmão e foi abrir os caminhos. No começo, tudo era difícil. Sentia-se só, rejeitada, sem amigos e amores. Até que conheceu os estudantes africanos da UnB e se sentiu em outro mundo.

— Passei a ter namorados, amigos, a ser ouvida e me sentir interessante. Já tinha aí uma consciência que, como negra, os espaços sempre precisavam ser conquistados.

Já funcionária da Embaixada de Angola, onde fez carreira por 12 anos, Cristiane Sobral finalizou o curso de artes cênicas encenado um texto de sua autoria. Boneca no lixo, com direção de Hugo Rodas, espelhava os enfrentamentos na vida. Recentemente, teve um grave problema de saúde e chegou a ser desengana no hospital. Viveu uma experiência de quase morte, mas quis profundamente reinventar-se. Publicou o livro de poemas Não vou mais lavar pratos. É professora de ensino a distância da UnB. Poeta, atriz, articulista… São muitas alforrias!


Esquetes

Tópicos do teatro negro

» Em 1999, Cristiane Sobral criou o Cabeça Feita, primeiro grupo de teatro negro de Brasília. Buscou fundamentá-lo com experiências no Bando de Teatro Olodum (BA) e Cia. dos Comuns (RJ). A companhia criou uma dramaturgia própria e negra.

» Atualmente, Cristiane Sobral faz mestrado na UnB onde pesquisa o teatro negro no Brasil.

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