terça-feira, 13 de setembro de 2011

A sorte do encontro



Olhos negros de azeviche
Enfeitiçou-me
Minha força tornava-se fraca diante dos seus braços
Na tua presença estava minha paz
Quando estava distante da minha visão
Nascia um abismo de angustia
Pedidos a Boa Morte é o que fazia nas madrugadas
Enquanto você lá está com sua armadura
Sua espada era submetralhadora HK
Não buscava a violência
Mas ela sempre o encontrava
Desde menino foi assim
Cresci te acompanhando com o olhar
Um dia...
Enquanto você desejava nunca ter nascido
Seus olhos acharam os meus
E nesse dia fui ser sua Julieta e você tornou-se meu nobre Romeu
Foi o dia que acharam sua mãe
Morta, foi estuprada e espancada ate morrer
Depois jogaram na vala perto do lixão
Sai correndo, te avistei e não vi nenhuma lagrima escorrer
Estava lá sua rainha
Tratada como um lixo sem valor
Essa dor te arrancou o coração
O pouco amor que sobrou me entregou ate morrer
O único crime dela foi casar com seu pai
Que na falta de oportunidade
Escolheu ter poder entre os seus
Povo negro excluído pela cor
Vendendo e negociando a dor das famílias brancas
Podem nos chamar de bandidos
Mas são seus filhos que mantém o trafico de drogas
Mãe morta e pai preso
Negocio para assumir e a dor ficou escondida
Meu nobre cavaleiro sempre de cara amarada
Sorriso só no momento de intimidade e amor
Foi treinando pra ser rei
Seu pai te ensinou a enfrentar a guerra
Sua mãe te educou para sobreviver na selva
Não desejava sair, sabia seu lugar
Essa luta ta perdida só me resta aproveita
A vida é curta e quem disse que eu quero muito
Tem muita gente pra subir então se cuida
Homens de preto invadindo o bairro
Pregam segurança
Mas enquanto atiram nunca olham para as crianças
Todas na rua
A correria começou
Meu coração dispara
Será que o triste dia já chegou?
Peguei meu Junior e minha santa me dizia
Corre, foge, hoje é o dia
Passei por carros, mas não fui reconhecida
Parceiro de Romeu me ajudaram na corrida
Romeu ligou
Pela ultima vez jurou amor
O desespero a minha alma inundou
Olhava meu filho
Só 3 meses de idade
Chorei por dentro, não poderia nem pensar em ser covarde
Em outro bairro
Ouvi 2 tiros que me chegou
Não eram em mim
Mas esses tiros meu destino marcou
Meu Romeu dessa emboscada não escapou
Essa dor não podia ser maior
Sai de casa com 13 anos
Minha mãe morreu quando eu tinha apenas 5 anos
Morreu de AIDS, meu pai nem sei quem é
Minha avó me batia ate sangrar
Por não saber pedir e não saber roubar
Foi meu Romeu que me ensinou o que era amar
Só me resta uma opção
Voltar pro morro e tomar a minha herança
Lá sou rainha e meu filho é um nobre príncipe
Subi o morro e nenhuma lagrima derramei
Meu sogro já tinha dado as ordens
Morreu meu filho, mate a mulher e neto também
Ele desejava voltar em fuga dentro de um mês
Na subida fui avisada, mas enfrentei
Fecharam comigo de cara uns cinco ou seis
Deixei meu filho na casa de minha avó
Que com bofetadas me avisou
Pode ir, mas não se atreva a voltar
Esse é minha chance de acertar
Esse menino eu mesma vou criar
Subi sozinha e com os poucos companheiros
Cinco tiros me atingiram o peito
Pensei em tudo
Lembrei do meu livro preferido
Lá estava minha historia se repetindo
Entreguei-me a morte na certeza do encontro
Romeu e Julieta mais uma vez virou conto.
Larissa Nascimento

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