segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Em Salvador é tempo de Arbítrio

Este foi um texto escrito por nossa queridíssima Deolinda Vilhena, em sua coluna no Terra Magazine. Que como prometido, estava lá em nossa estréia. Esperamos ter atendido às suas expectativas.


LINK: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5385464-EI11348,00.html




Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)



O elenco: Naia Alex, Laís, Laura, Luísa e Yuri (Foto: Divulgação)
Não acredito em quem faz teatro e não vê teatro. Tenho dificuldade em entender como se pode sonhar em diretor, ator ou técnico sem ter curiosidade em ver o que seus contemporâneos fazem. Desde sempre, ao chegar numa cidade o que mais me interessa é a possibilidade de descobrir o teatro que é feito nela. E mesmo se, desde que cheguei a Salvador, pude ver muito menos coisas do que gostaria, ou do que necessita a minha curiosidade sem fim, tenho conseguido encontrar pistas interessantes.
Verdade que agora estou no celeiro do teatro baiano. Afinal, desde sua criação em 1956, a Escola de Teatro abastece a cena baiana. Para alegria de uns, tristeza de outros... Inúmeros papos de mesa de bar, brigas de fim de noite, entre os que são contra e os que são a favor da academia...na dúvida sugiro que, nessas horas, façam a opção pela Academia da Cachaça. Porque, cá pra nós, como é chato e ultrapassado esse papo. Principalmente, para quem, como eu, divide o teatro em dois: o bom e o ruim. O resto é conversa mole...papo de pseudo-intelectual...
Confesso que na Escola de Teatro sinto-me no lugar certo. Não preciso mais procurar por espetáculos. Eles chegam a mim. E foi assim que descobri o Teatro Base. Afinal, Alex, Laís, Laura, Yuri, Diego e Sandro são meus alunos. E é deles que quero falar hoje. Porque tendo assumido meu cargo de Professora há exatos três meses, é graças a eles que tenho renovado - diariamente - minha paixão pelo teatro.
DESCOBRINDO O TEATRO BASE


A estreia de hoje: recomendo (Foto: Deolinda Vilhena)
Ao chegar na Escola de Teatro, a cada turma que encontrava pela primeira vez, usava a aula para uma conversa. Para dizer a eles ao que vim, esperando que eles também me dissessem o que esperavam da Escola e dessa professora que acabava de chegar. Foi assim que tomei conhecimento da existência do Teatro Base. E uso aqui um texto do blog deles para apresentá-los a vocês: "somos atores e encenadores, dramaturgos e bailarinos, pintores e compositores. Somos letras, música, dança, pintura... TEATRO! Somos artistas! Construtores do Mundo e não construção dele!".
Sentiram a força da garotada? Pois é, e tudo isso se apropriando dos meios de produção e tornando-se sujeitos do processo criativo.
Pois o Teatro Base é formado por alunos de Artes Cênicas - Habilitação em Interpretação e Direção Teatral, e Licenciatura em Teatro da Escola de Teatro Universidade Federal da Bahia (UFBA), que se uniram para compor um núcleo de pesquisas teatrais. Tomaram como ponto de partida o Método das Ações Físicas, e em desde abril de 2010, decidiram se aprofundar nas pesquisas relacionadas à arte do ator, analisando os métodos de representação com mais profundidade e em regime de teatro de grupo.
Durante as primeiras pesquisas teóricas, o grupo chega a um conceito que lhe pareceu provocativo para a pesquisa, a técnica pessoal do ator, e usando um termo do encenador polonês Jerzy Grotowski intitula a pesquisa de Via-negativa.
O primeiro semestre de trabalho do Teatro Base marca a entrada numa fase de pesquisas pragmáticas, nas quais eles organizam uma serie de treinamentos plásticos, pré-expressivos e expressivos, onde o ator descobre e reconhece, e tenta vencer os obstáculos de suas limitações físicas e vocais.
Ao longo do processo de pesquisa o grupo começa a ser provocado para uma produção criativa, o encontro com o espectador. Assim nasce o primeiro experimento cênico do grupo, e sua primeira mostra pública, no final do mesmo ano.
O trabalho culminou em uma dramaturgia autônoma inspirada por textos de Federico Garcia Lorca, William Shakespeare, Calderón de la Barca, Guimarães Rosa, acrescidos aos textos da prata da casa: Bárbara Pessoa (dramaturga) e Diego Pinheiro (diretor). O texto, assim como a encenação, assume caráter experimental.
Pois hoje à noite, o Teatro Base estreia seu primeiro espetáculo Arbítrio, que fala das relações de poder e fanatismo dentro de uma família "aprisionada" em uma casa, em outro tempo.
Temas como a maternidade e a religiosidade permeiam a casa e a família, e fortalecem as relações familiares em uma atmosfera densa e questionativa. Segundo o diretor Diego Pinheiro: "em Arbítrio a religiosidade tem suma importância, pois usamos de imagens e signos religiosos para criar maior empatia com o espectador".
O público que comparecer a Casa Preta - espaço alugado pelo grupo, e na minha opinião prova da maturidade e seriedade do trabalho - vai se deparar com uma família condenada a crueldade de sua existência, em um jogo com ações do passado que respondem a situação atual vivida pelos membros da família. Neste discurso, corremos o risco de descobrir que todos na casa, inclusive os que nelas não mais residem, possuem um claustro interno. Essa é a promessa do release enviado por eles.
Ainda não vi o espetáculo. Estarei na estreia dando a maior força a esse grupo. Porque nos últimos 45 dias acompanhei de longe o movimento em torno de Arbítrio, e foi impossível não me deixar contagiar pelos sorrisos escondidos atrás das olheiras. O cansaço que via estampado na carinha de cada um, não me impedia de ver em seus olhos, aquela mesma esperança que tinha quando resolvi - num longínquo verão de 1973 - fazer teatro e que renasce a cada vez que a vejo em outro olhos...
Ah! O Teatro Base é Alex Barreto, Bárbara Pessoa, Diego Pinheiro, Laís Machado, Laura Sarpa, Larissa Raton, Luísa Muricy, Naia Prata e Yuri Tripodi. Guardem bem esses nomes, espero poder escrever sobre eles diversas vezes nessas páginas virtuais.
Merda! Que vocês façam da frase do Gerald Thomas - saia do confinamento de sua província - o lema de vocês! Afinal, o mundo é um palco, já dizia o bardo inglês...e a vocês pertence!
SERVIÇO ARBÍTRIOUm espetáculo do Teatro BaseDireção: Diego PinheiroAssistência de Direção: Sandro Souza e Ricardo SantanaCom Alex Barreto, Laís Machado, Laura Sarpa, Luísa Muricy, Naia Pratta e Yuri TripodiDramaturgia: Bárbara PessoaTextos: Federico Garcia Lorca, Calderón de la Barca, William Shakespeare, Guimarães Rosa, Fiódor Dostóievski, Johann Wolfgang von Goethe, Gilles Deleuze, Sto. Agostinho,Voltaire, Diego Pinheiro e Bárbara PessoaRealização: Teatro Base - Grupo de Pesquisas sobre o Método do AtorQuando: De 30 de setembro a 30 de outubro, sexta a domingoHorário: Sexta 20 horas; sábado 18 e 20 horas; domingo 18 horasOnde: Casa Preta (Rua Areal de Cima 40, Dois de Julho, Centro, Salvador (71) 9967-1342)
Quanto: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia)
Maiores informações: www.oteatrobase.blogspot.com / oteatrobase@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

utilize a sua inteligencia...