sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eu pago R$ 2,50 pra que?

Isaac Newton afirmou que "Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo". Ele disse isso porque nunca pegou o 'Estação Pirajá x Barra 2'. A fila dessa linha fica tão grande que depois que os passageiros entram no ônibus ela nem parece ter mudado de tamanho. Não entram apenas os 40 passageiros sentados e 35 em pé (capacidade da maioria dos ônibus urbanos), são mais de 100 que se sufocam, fazendo com que, muitas vezes, os ônibus transitem com as portas abertas. E a galera não tem essa de "Aah... O ônibus tá cheio, vou esperar o próximo", o povo se joga mesmo. Quem já entrou num ônibus desse sabe que ali agente tem que brigar até com o Ar por espaço.
Tem passageiros que ficam muito irritados porque, mesmo superlotado, o ônibus continua parando no ponto. Por isso que antes de gritarmos com o motorista questionando a conduta da mãe dele, devemos nos lembrar que ele só está seguindo a orientação passada pela prefeitura, que tem funcionários que ganham bem, tem carro e, por estes motivos, não precisam pegar o busão.

"Num ônibus super lotado, uma mulher volta-se para o passageiro inconveniente:
- O senhor quer fazer o favor de desencostar e afastar essa coisa volumosa que está me incomodando?
- Calma, minha senhora. Não é o que está pensando. Este volume é o dinheiro do pagamento que recebi hoje. Enrolei num pacote e botei no bolso esquerdo da calça.
- Ah! Então o senhor deve ser um funcionário exemplar.
- Por que?
- É que desde o embarque até aqui, o senhor já teve três aumentos salariais!"

Você já pegou o 'Mirantes de Periperi x Ondina'? É tanta gente naquele ônibus que você não pode nem tirar o pé do chão. Se você tirar o pé dois segundos, outro aparece no lugar. Agente fica no ônibus apertado com o pé suspenso, dando uma de Saci Pererê.
Soltaram um pum no ônibus cheio!
Pior mesmo é quando você está num 'Est. Mussurunga x Ribeira' hiper lotado e começa a chover. Os passageiros fecham as janelas e, vestidos com roupas quentes porque tem chovido a semana toda, passam a sentir um calor insuportável. A galera começa a suar e o ônibus fica parecendo um cuscuzeiro. É nessa hora que se descobre que não é só você que compra aquele desodorante de R$ 1,50. Aquele "Avanço", por exemplo, só serve pra deixar a catinga avançar. Pra piorar, num calor infernal, com pessoas sentindo falta de ar, agente sempre sente aquele cheirinho familiar de um FDP que largou um peido ali mesmo,  dentro daquele lugar fechado e cheio de gente. Dentro do Busú a suvaqueira começa a subir e aquela inhaca permanece durante a Avenida Paralela toda até chegar na San Martin, que é quando o ar entra pelas portas que foram abertas para os passageiros descerem.

"O gaúcho está num ônibus lotado quando, de repente, vem um sujeito e se encosta atrás dele.
- O que é isso, tchê? - diz ele, virando-se. - O que tu tá fazendo aí atrás?
E o sujeito, todo desconcertado:
- Eu? Todo fazendo nada não, senhor.
- Então cai fora e dá lugar pra outro!"

O Baleiro levanta a guia pra tentar passar no meio do povo dentro do ônibus cheio enquanto usa aquela voz irritante pra poder dizer mais ou menos a mesma coisa que todo baleiro diz: "Desculpe atrapalhar a sua viagem, mas eu tô aqui não pra dá, mas pra vender a nova sensação, o sabor do momento. Essa deliciosa bala sabor morango, maçã, menta, melancia, tutti-fruti (...)" (Eu coloquei pontuação para um melhor entendimento, mas ouvindo eles falarem, não dá pra identificar nenhuma) e por aí vai. Pobre sofre!
No 'F. Grande x Barra' agente só escuta as mulheres gritarem "Meu pé, moço!". Num 'Sussuarana x Barra' lotado, todo mundo que senta na cadeira reservado pro idoso pega no sono. Alguns motoristas dessas linhas passam voando por alguns pontos de ônibus porque não tem mais espaço pra alguém entrar. Isso dá oportunidades para pessoas não-autorizadas aumentarem a frota de veículos do transporte clandestino, que só é utilizado porque a população está insatisfeita com o transporte coletivo autorizado.
Não estou mais afim de pagar impostos mais R$ 2,50 pra viajar em pé, sufocado, num trânsito engarrafado, tendo o pé pisoteado e tentando me esquivar dos roçadores. Numa situação como essa eu fico sempre de frente para o passageiro em movimento. Isso o desencoraja a tentar medidas persuasivas. Já passou da hora de melhorar esse transporte público soteropolitano.

Um comentário:

  1. Caro Diego.

    Parabéns pelo texto. O tema e tem sido debatido já algum tempo, mas infelizmente nós, militantes, não estamos sendo capazes de usar mecanismos que sejam eficazes, então nossas reivindicações não são atendidas.

    A má qualidade no transporte "público" é fruto da falta de respeito que a elite e também "nossos" representantes possuem para conosco. É um serviço prestado apenas a classe operária, ainda que a mesma esteja pagando para fazer uso os empresários não se importam em presta um serviço de má-qualidade.

    O Transporte "público" tem a mera função de ser o intercambio da casa do trabalhador ao local de trabalho do mesmo e o percurso contrário. Considero um grande problema essa situação a qual somos submetidos, pois o valor que pagos possibilita uma prestação de serviço com qualidade, visto que é uma quantia considerável.

    Abraço forte!

    Lauro Araújo

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