sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Panteras negras e a nossa identidade

Caminhos da identidade negra
Cristiane Sobral






Quem me disse pela primeira vez, tu és negra, enxergou a minha negritude a partir de que ponto de vista, do ponto de vista dos brancos, sobre qual é o lugar, o jeito de ser negro na sociedade? Não existe uma única maneira de ser negro e negra. A experiência de ser negro e negra no Brasil, em cada Estado, em cada região, seja no centro no na periferia, é unica.


Quero o negro a partir de dentro, da minha essência, do tigre que não precisa proclamar a sua tigritude, segundo Wole Soyinka. Por outro lado, também estou diante da dialética que acata totalmente os gritos de dor que saem das gargantas negras depois de retirados os grilhões da escravidão, desvendando os véus da diáspora...


Meu ponto de vista não me permite enxergar a minha negritude partindo do princípio de que o lugar que ocupo enquanto identidade étnica não é o lugar ideal, não é um ponto de vista de cobiça de um eurocentrismo perdido, nem de uma branquitude não conquistada, muito menos de proclamação dos privilégios da miscigenação, quero o negro a partir de dentro, as descobertas que saem pelos meus poros, que caem com os meus fios de cabelo, outrora negros, em diálogo com alguns tufos de pelos brancos, quero o negro a partir da vitória dessa contradição, diante do privilégio da reinvenção.


A construção da identidade negra não deve ser assassinada por padrões de consumo nem ditaduras de imagem. Não é um caminho para adestrar homens de cor a caminho da evolução, rumo ao mito da alma branca... Proclamo a escuridão da vitória, o privilégio de ser aquilo que se é, o preto no preto, enxergar-se diante de um espelho negro, sem comparações cabíveis, em busca de outros padrões estéticos referenciais.







CUIDADO
Cristiane Sobral

Eu vou falar do nosso cabelo
Eu vou falar de tudo o que fazem tentando o sucesso
Eu vou falar porque isso acaba com a gente


Primeiro aparecem uns pentes frágeis
Impossíveis às nossas madeixas
Depois apontam para um padrão que nunca poderemos ter
Ficamos condenados indiferença e à exclusão.


De repente
Estamos sonhando com toalhas amarradas na cabeça oca
Num passe de mágica aceitamos o codinome pixaim e o sobrenome "bombril"



Começamos a moldar o caráter
A amolecer diante das decisões
Infelizmente esquecemos que só podemos ser o que somos


Passamos a vida inteira tentando atingir uma clareza
Que nunca poderemos ter
Nem precisamos


A negritude é um quarto escuro com bicho papão e mula sem cabeça
É um quarto mítico onde ninguém quer entrar


Eu vou falar do que fazem com o nosso cabelo
Eu vou falar de tudo o que fazem tentando o sucesso
Eu vou falar porque isso acaba com a gente


Primeiro dizem que todos somos iguais
Que somos todos filhos de Deus
Rapidamente é diagnosticada a paranóia
Começamos a achar que o problema está na nossa cabeça preta



Nunca no olhar do outro
Nunca no deboche do outro
Nunca no sorriso de lado


Alguns conseguem ir mais longe
Mas isso tem um preço!

Precisam ficar sozinhos
Precisam ficar clarinhos...
Precisam usar apliques



Eu vou falar do que fazem com o nosso cabelo
Eu vou falar de tudo o que fazem tentando o sucesso
Eu vou falar porque isso acaba com a gente


Deu branco!
Alguém me empresta uma identidade aprovada no teste da boa aparência?


Em 1966, Huey Newton e Bobby Seale criaram o “Partido Pantera Negra para autodefesa”, que não era um partido político, mas um grupo de protesto contra a violência racista branca.


Os Panteras foram fundados com base num plano de 10 itens:


Queremos liberdade. Queremos o poder para determinar o destino de nossa comunidade negra.
Queremos emprego para nosso povo.
Queremos o fim do roubo feito pelos capitalistas contra as nossas comunidades e oprimidos.
Queremos moradias decentes para seres humanos.
Queremos uma educação de qualidade que exponha a real natureza desta sociedade decadente e que ensine a verdadeira história dos EUA.
Queremos saúde gratuita para todos os negros e oprimidos.
Queremos o fim imediato das agressões policiais contra os negros e oprimidos.
Queremos o fim imediato de todas as guerras.
Queremos a liberdade de todos os negros e oprimidos que estão em cadeias municipais, estatuais e federais. E que todos sejam submetidos a um júri justo composto por todas as parcelas da sociedade.
Queremos terras, pão, habitação, educação, vestuário, justiça, paz e acesso a tecnologia moderna para toda a comunidade.



cristianesobral.blogspot.com

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