quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Amor de carnaval.

Trabalhava o ano todo planejando como seriam os seus cinco dias de gloria. Vendia balas, cafezinhos e cigarros, em um dos muitos pontos de ônibus da Av. Tancredo Neves. Era mais cidadão José, simples prestador de serviço, daqueles que se passa todo dia e nunca se vê. Daqueles que de tão simples eram invisíveis na dinâmica do cotidiano urbano soteropolitano. Ela era a “Secretaria” em um dos muitos escritórios que haviam na mesma avenida, pegava ônibus no mesmo ponto onde o “Baleiro”  trabalhava.

Encontrava-o diariamente de segunda a sexta, geralmente no mesmo horário e  em dias de muita espera ele dizia:
- E ai freguesa vai uma ai a distração da viagem?
 Era nesses momentos em que ela catava as suas nicas e comprava um Mendorato, uma balinha de gengibre ou qualquer outra guloseima da banca do baleiro.

Ele a achava linda. E ela nem o notava, tanto que se um dia por acaso o encontrasse na rua nunca o perceberia. Era época de carnaval, ele mais uma vez, como em todos os anos anteriores, preparava o seu poderoso arsenal de Ghandy, Turbante, muitos colares e aquela cheirosa alfazema. Ela ganhou da empresa um abada do Chicletão, já era comum, todo o ano ganhava um abada diferente. Sempre que acabava o desfile na avenida, ela esperava juntamente com  outros milhares de foliões, o tradicional  tapete branco passar.

Nesse ano não foi diferente, ele chegou, o lindo e imponente tapete branco. Transbordou a avenida de paz, fazendo a multidão vibrar como já contou a Rainha do Axé Music Daniela Mercury “... olha o Ghandy aê, olha o Ghandy aê ó...” Ela o avistou, lindo todo vestido de branco, com suas dezenas de colares azul e branco. Foi como se a avenida tivesse parado, ela o olhava e desejava que ele a visse também. Ele a viu,  caminhou em sua direção e ela disse:
- Um beijo, por um colar do Ghandy mais lindo da avenida.
Ele pois um colar no seu pescoço e a beijou, tudo a redor parou, a musica, o vento, a população. Era como se não existisse nada, só eles e o beijo.

De repente seus pés tocaram no chão e tudo tomou forma novamente. Só deu tempo de ver seu cavalheiro de branco partir, ao ritmo do genuíno afoxé.
Acabou o carnaval. Tudo voltaria ao seu cotidiano. Na quinta feira mais uma vez como em quase todas do ano, ás dezessete horas ela chagou no ponto, sentou e desejou uma balinha. Resolveu caminhar até o Baleiro, e assim o fez.
- Quero três balas de hortelã..
Disse ela ao baleiro. Ele prontamente entregou as balas recolheu o respectivo valor, e com um sorriso de canto lhe perguntou:
-Não lembra de mim?
E ela imediatamente respondeu, como se o repreendesse por tamanha ousadia.
-Não. Porque? deveria?
Ele olhou pra ela gargalhou e disse:
-Como já esqueceu o Ghandy mais lindo da avenida?

Dedicamos esse conto a nossa querida amiga e vizinha Antonia Lima. Que com seus préstimos, carinho e paciência ganhou cadeira cativa nos nossos momentos importantes. 

Jr. Borges e Anajara Tavares 05/02/2010

Um comentário:

  1. Linda historia de carnaval! Adoreiii!Lindo ver os filhos de Ghandy passar na avenida!
    !!

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