quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A superação do paradigma de Lynch - Por Helder Bomfim



Acordo pensando como é cruel a situação da população negra no Brasil. Socialmente somos marginalizados, estigmatizados e oprimidos pelo racismo e por todas as assimetrias e desigualdades decorrentes dele nesse País. Literalmente “no olho do furação”, buscamos qualificação educacional para fortalecer a esperança de que um dia transformaremos as correntes que ora aprisionaram nossos ancestrais em uma corrente, ou melhor, uma rede de mobilizadores sociais negros com capilaridade e atuação em todo Brasil e internacionalmente. Mobilizando todo o território nacional, a partir das comunidades, consideradas como periféricas, para superação da condição de desorganização política resultantes da socialização racista.

William Lynch foi um escravagista europeu que em 1972, proferiu um discurso apresentando técnicas de controle dos africanos deportados para os Estados Unidos, que se revoltavam criando problemas para os negócios escravagistas. William Lynch, indicava que a melhor forma de controlar os negros era instigando internamente a diferença entre eles, suscitando a desconfiaça e descoesão entre os grupos. Ver carta de Willian Lynch (link: http://informativohumaita.wordpress.com/2007/10/02/hello-world/).

Ainda assim, hoje, organizarmos nossos pensamentos, ideias, ideais de luta e buscamos difundi-los das diferentes formas: cantamos a resistência, questionamos a história oficial, buscamos cargos públicos, conquistamos a Política de cotas, brigamos pelo Estatuto da Igualdade racial e promovemos ações comunitárias de enfrentamento do racismo. Resistimos à dominação política, cultural, social e eugênica de uma sociedade racista por definição. Vale ressaltar ainda que, nos deparamos sempre, em nosso cotidiano, com a celébre frase de Ali Kamel, “nós não somos racistas”, sendo reproduzida por, “brancos, pretos, quase brancos e quase pretos”. Afirmativa que domina os pensamentos e as ações políticas de possíveis agentes da mudança e enfrentamento do racismo, e dissimulam no cotidiano os efeitos perversos das questões raciais brasileiras.

A justificação da célebre arfimativa supracitada, título do livro de Ali Kamel, que traz para o presente as feridas resultantes da suposta “harmonia racial” que fundamentaram as práticas de violação dos sexos das mulheres negras escravizadas. Mulheres essas, negras, oprimidas sexualmente pelos desejos dos Senhores de engenho, jagunços e qualquer outro representante da ideologia branca que até hoje transitam livremente entre nós.

De fato, a mistura entre as raças ocorreu em nosso país, mas não podemos deixar de lembrar que se deu reproduzindo o racismo e a opressão da população negra, considerada até hoje como corpos passiveis de violação. Corpos negros, violados inclusive pelas Políticas de Proteção do Estado.

As políticas e práticas da Segurança Pública em nosso democrático país se diferem das práticas dos jagunços da Colonização apenas pelo seu grau de burocratização, legitimada pela retórica da racionalidade moderna. Segundo relatórios oficiais, como por exemplo, o Mapa da Violência 2011, (Ministerio da Saúde e da Justiça), enquanto que há uma queda no número de homicídios da população que se declara branca, o número de homicídios dos negros aumenta.

Corpos negros, como o de Joel da Conceição Castro, garoto de 10 anos que foi assassinado, cruelmente baleado em sua própria casa durante uma ação da polícia no dia 22 de Novembro de 2010 no Nordeste de Amaralina, bairro da capital Bahia. Paradoxalmente o garoto protagonizava um vídeo institucional do Governo do Estado da Bahia, demonstrando suas habilidades como capoeirista.

No que diz respeito ao mercado de trabalho, deixamos de ser condenados à escravidão e somos condenados ao mercado informal e às profissões de menores prestigio social. Basta uma simples caminhada dentro de um Shopping Center, em qualquer cidade do Brasil, para perceber onde está alocada a força de trabalho negra. Será uma mera coincidência sermos maioria nos postos de trabalho com menor remuneração e piores condições de salubridades? E ainda quando somos absorvidos somos obrigados a esconder, cortar, alisar nossos traços raciais e culturais. Em busca da adequação ao perfil da empresa. Negando nossas origens, nossa beleza, em prol da reprodução de um padrão estético eurocêntrico ou holliwoodiano.

Nossos traços, costumeiramente são associados pela mídia, que manipula as mentes desse país, à marginalidade, à violência e ao desprestigio social. Uma verdadeira violência simbólica, veiculada dentro de nossas casas (nas Tvs, revistas, internet e outros veículos) refletindo a quase que total inexistência de representações positivas da população negra na TV e no cinema hegemônico. Com tanta força como as produções cientificas das teorias raciais do século XVII e XIX que associavam a propensão à criminalidade e a loucura características físicas da população negra.

Hoje se observa que com maior poder de difusão a mídia tradicional brasileira reproduz esse massacre identitário e simbólico e bestializa da população negra, a ponto de provocar um sentimento de alienação da raça, reflexo das centenas de definições cromáticas catalogadas pelo IBGE: marrom bombom, cor de formiga, moreninho, cor de chocolate, cor de canela, e outras.
A cada dia, nós negros, somos vitimizados e oprimidos num jogo onde não há jogadores (afinal, ninguém é racista) no qual os prêmios são bem definidos e “democraticamente” partilhados historicamente por uma pequena parcela da população (que não é negra). E tem privilégios mantidos para seu desfrute desde momentos anteriores a formação do Estado Brasileiro. Como salientou Sueli Carneiro, temos que nos indignar diante da situação da população negra de nosso país, e, sobretudo, nos fortalecermos junto aos outros indignados.

A equidade no Brasil é o caminho para uma sociedade democrática e justa, que reconheça as diferenças e possibilitem a emancipação da população negra. As ações do Estado devem está articuladas inter setorialmente, somando forças para desconstruir preconceitos históricos. Gingando vorazmente, os nostálgicos conservadores, a direita herdeiras dos privilégios e até a ala da esquerda racista para reparação da população e promoção da igualdade racial. Difundindo e promovendo as estratégias de enfrentamento do racismo. Além de possibilitar a institucionalização e profissionalização dos grupos periféricos e comunitários, para garantia de um controle social descentralizado e efetivo no monitoramento das ações e deliberações a cerca das questões raciais.

Com a difusão dessas práticas deixaremos nosso atual estado de retórica democracia para um momento de construção de um Estado equânime centralizando seus esforços para dissolução da estrutura hierárquica e racializada que aprofundam nossas “tão, tão” conhecidas desiguldades.

Helder Bomfim – Sociólogo
Coordenador do Projeto Eu Sou Negão
INSTITUTO COMVIDA - BAHIA

2 comentários:

  1. Belissima colocação Helder, fez lembra da frase de Bob Marley a qual diz:
    “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, sempre vai existir guerra.”Bob Marley
    Infelizmente é essa a visão da população mundial.

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  2. Às vezes quero sentir na "pele" como seria ser negro nesse mundo de "brancos", pois só ouvindo falar não dá a dimensão real desse "fardo". O que é ser negro? é diferente de ser branco? no fim das contas tudo não é um? porque houve essa distinção? o branco nao foi uma mutação do negro? entao a origem foi negra! Tudo é tão confuso! Acho que a divisão é que é o marco inicial das confusões humanas. Não importa se é de cunho racial, religioso, econômico, cultural ou o escambal. É preciso voltar prá dentro de si mesmo e tentar descobrir que vc ou ele ou a árvore ou o rinoceronte ou a bactéria é só uma máscara no grande rosto e que essa balela de branco X negro é só um joguinho nesse sonho universal!

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