sexta-feira, 25 de maio de 2012

FUTEBOL (Diego Pinheiro)

A verdade é que eu amo a humanidade, e por isso me considero uma pessoa de maldade eterna... sonhei ontem com um mosteiro... um mosteiro de tamanho colossal. liguei imediatamente a meu sonho de infância
um mosteiro de tamanho colossal... existe uma pretensão grandiosa na vida mundana.
não... eu ansiava em ser monge, de viver fazendo bens. eu queria... ser monge.
os monges são pessoas muito inteligentes, e possivelmente amam a humanidade como cristo amou, como são francisco amou, como... como diderot amou...
diderot... não.
sim... diderot... não.
comprovado. amar a humanidade é digno de uma pessoa que pensa em se tornar mártir... pessoas más. amando a humanidade... penso em um ato de amor para com a humanidade e então...? começo a me detestar... começo a detestar as pessoas ao meu redor... sem nenhuma restrição... ponto... ponto.
estou me sentindo detestado.
eu estou me adiando. afinal de contas amar a humanidade não significa que eu deixei de ser homem, HOMEM... homem? o homem no sentido mais antropológico possível... um homo sapiens... fedorendo... esse nome me lembra fedor.
ser homem mata a minha humanidade... ter humanidade mata o meu homem...
mas existe toda uma absoluta razão aqui... claro. e isso transforma o meu humor. não amar a humanidade nos leva a esquerda de quem vem pilotando o mundo, a via láctea, o universo... e ele pilota o mundo va-ga-ro-sa-men-te, como se estivesse a pilotar um patinete quebrado. seguimos então uma via-negativa a dele... e nos encontramos com os querubins... voamos... nos sentimos pessoas boas... somos pessoas boas... não amamos a humanidade... ela se distancia junto com o seu piloto, do patinete, dando gás, cansado... como se estivesse sustentando o mundo, como se o mundo fosse o carona... uma total falta de humanidade!
como posso... eu... ser homem?
o patinete está desgovernado.
um tiro resolveria tudo. um único... ou talvez a queda, uma queda onde eu possa quebrar o meu crânio, especificamente o seu lado esquerdo... e um rio vermelho manchar um meio fio qualquer. e minha cabeça... ah, a minha cabeça... uma fonte... ela vai ficando vazia, oca, típica cabeça de pessoa alienada. e meus olhos muito esbugalhados... rosinhas... mimosinhos... isso tudo dói.
 quero me matar. talvez, neste momento, seja a coisa mais certa a vagar em minha mente. isso nunca será entendido... de nenhuma forma.. ponto... ponto.
não seria exato esse tipo de pensamento. não existe uma ajuda? uma camaradagem?
por que se matar? existe um porquê?
se eu soubesse que viveria assim escolheria não estar no mundo.
existem vários porquês...
talvez todo ser humano seja um fantasma... isso... acho que morri em outro mundo, e minha alma foi condenada a viver no purgatório.
no inferno!
não existe morrer duas vezes então?
não.
a morte... a morte... hum... ela é! sempre é uma solução. uma boa solução... para um mártir! como no teatro!
sim... no teatro!
no teatro! morrer no teatro sempre é uma solução... foi assim com shakespeare quando ele escreveu hamlet... ninguém consegue ficar a vida inteira pensando nos porquês de tudo... isso não é vida...
não é. nunca foi.
mas viver isso sem complexidade e psicologismos é uma aceitação... não podemos qualificar isso de vida... então...
hamlet estava certo então.
shakespeare estava certo...
shakespeare não estava certo...
eu estou tentando ser certo.
morrer no teatro... não seria uma solução para nós?
a morte... um passo... a morte... dois passos... a morte... sempre será uma solução.
não existe isso de sermos atores... não existe. existe um... uns... uma... tranqüilidade...
 como a nuvem que está a passar em nossas cabeças, sem o medo que ela tem em desabar. tranqüilidade, sem nenhum medo ou aceitação qualquer, mas mesmo assim com frio. tranqüilo... tranqüilo... muito! e podemos estar tranqüilos... não existe. tudo não passa de nãos-existencias... aquele pássaro: ele é um ser totalmente não-existente. mas ele voa, mas ele canta, ele caga em sua cabeça... as coisas não existem... assim como as pessoas não existem pensando em uma idéia de morte. o que é a morte para quem não existe? a existência! Existe algo tão ruim como existir? não sei responder essa pergunta... me parece muito difícil, conflituosa e conceitual... tudo que é conceitual é morto como a não-existência de pássaros que cantam, voam e cagam em nossas cabeças.
que história é essa de querer morrer...?
isso é pra quem existe...
não existe... um passo... não existe... dois passos...
poderíamos nos encontrar no paraíso depois.
ou em um bar de esquina... onde poderíamos passar a vida toda fumando e bebendo.
o bar... existência!
o bar... existência!
na verdade creio que o piloto nunca se preocupou em dar gás no patinete... é um esforço físico/mental muito difícil. por isso que as pessoas boas estão se distanciando, mas sempre em sua esquerda, em uma diagonal, um platô... arredondado.
isso significa que não existe outras pessoas a testemunhar esse tipo de movimentação.
no universo. onde mais?
não existem espectadores para este espetáculo.
espetáculo um passo...
espetáculo dois passos.
os marcianos... mártir!
um confronto extrematizado entre a humanidade e marcianidade. entre o nosso piloto do patinete quebrado e o piloto do patinete quebrado deles...
 não... o piloto deles pilota uma motocicleta, quente e feroz, venenosa...e nenhum marciano tem marcianidade. devem possuir uma bondade invejável.
estou desesperado.
ajudo um homem a se levantar.
fazer uma caridade.
... a levantar.
mas há uma falta de humanidade. só matando. como posso ajudar...? tenho repulsa.
Ajudar um homem caído... um homem com fome, um homem que precisa ganhar muito dinheiro na loteria... ajudar... sem esperar... que graça tem você ter dinheiro e não ajudar ninguém? que graça você saber um ofício e não ajudar ninguém? pra ser homem a gente tem que pensar nos outros.
isso é ser homem de verdade.
isso é ser gente.
humano!
tenho medo de morrer de ingratidão.
alguns monges morreram de ingratidão.
mas... como é não amar a humanidade?
mas... como é amar a humanidade?
odiar o homem.
tudo em sua volta.
o banquinho de praça.
os coqueiros.
os bem-te-vis.
os sabiás.
as baleias orcas.
o carro do ano.
a copa do mundo.
talvez.
A velocidade das coisas.
A velocidade das coisas... com certeza... claro...
as coisas costumam assumir uma velocidade que se assemelha a um trem bala. e a vida tenta atingir uma normalidade... tudo parece ser tão normal que beira ao monótono, a estaticidade terrível que é estar parado, diante do espelho, penteando os cabelos, ao mesmo tempo que rezamos um rosário... e tudo não passa de espera... e a velocidade se torna uma farsa... o trem, meu celular, minha televisão, a fila do banco, meu computador... tudo é uma mentira de velocidade. esperar o trem bala, esperar o patinete se mover... ou chegar? tudo alcança uma instabilidade fora do normal... ou normal...? posso me barbear e ficar... cansado em seguida...
... o que se pensa ser vida se torna, a velocidade de um trem bala, em vida realmente?
Ins-ta-bi-li-da-de.
o tempo é a criação fatal do homem.
e o homem a criação fatal do tempo.
é?
é!
um mártir não pensa duas vezes. o mártir sempre sabe o que faz para ajudar o seu igual. conseguir pão, peixe, vinho... essas coisas.
um mártir não pode saber que é mártir. ele se lança, geralmente sem saber... e no final de tudo... ele morre sem saber que morreu para salvar pessoas.
é uma vontade independente de uma realidade tão crua como essa... de uma verdade.
a verdade de todas as verdades é que pensamos que podemos estar deitados cobertos por uma colcha chenille azul clara, confortáveis, as mãos postas no peito como um morto, disse como um morto, olhos bem abertos, ardendo por obrigá-los a não piscar, possivelmente dormindo – mesmo de olhos abertos – não o sono dos justos, mas o sono dos humanos que se encontram em estados diferentes no astral... e o universo todo conspira para que seus sonhos sejam cruéis... homens como nós... não podemos
 nos dar ao luxo de pretensões grandiosas, sonharemos sempre com quedas... enormes... sem gritos... mudos.
uma queda enorme, sem fim, um eterno estar caindo.
esperamos encontrar a vala.
e ela nunca chegará, pois castigo maior é estar respirando.
todo o ar do mundo.
e as pessoas?
as pessoas.
são vários olhos. olhos miúdos, puxados, coloridos, de marasmo, fortes, pessoas de olhos grandes... a queda é vista, sempre tem platéia. um homem caindo é tão bonito quanto estar rico... é de uma felicidade sem igual.
um homem caindo é felicidade eufórica.
correrei para segurá-lo se algum dia alguém poder me deixar.
e ninguém vai deixar.
e é aí que você se sente sozinho.
é aí que eu me sinto sozinho... vazio... sem sopros de vida.
sentindo a falta de minha maldita costela...
sentindo falta de alguém com uma espada de fogo me impedindo de fazer alguma coisa.
sentindo falta da criatura que me obriga a ter caganeiras.
de não sustentar a merda dentro do meu próprio corpo.
essa coisa toda ruim... essas coisas ruins
tudo que é ruim nasce no corpo... e sempre, quando expelido, quando evacuado, fede... tudo que é ruim fede.
a humanidade... a humanidade que nasce e prolifera neste corpo mundano e sensível ao tempo e espaço, é a coisa mais ruim que o homem pode deixar nascer...
 pior do que deixar nascer outra vida... para que ela sinta na pele a podridão que existirá dentro do seu... corpo.
de sentir fome e sede.
quero um sopro...?
não.
estou morto?
também não.


Diego Pinheiro
04 de Março de 2011

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