sábado, 29 de dezembro de 2012

Entrevista RENAJUNE : Isabel Ferreira



Admirada pelo grupo RENAJUNE, pela sua beleza, competência, talento e identidade cultural, convidamos Isabel Ferreira para compartilhar conosco sua historia de vida, experiências e ensinamentos. Nesta entrevista Isabel, fala sobre familia, educação, identidade cultural, carreira profissional entre outros assuntos bastante interssantes. Ficamos muito feliz pelo privilégio desta entrevista, o que para nós tornou-se muito gratificante apresentar ao nosso público leitor, mais uma personalidade negra que venceu na vida, com garra e determinação.

“A  área do ensino especial, foi o ponto alto da minha carreira, com estas crianças deficientes, aprendi que a nobreza humana se encontra na pessoa deficiente. A forma abnegada que travam para enfrentar o dia a dia, mudou o meu olhar...” 

                                (FERREIRA, Isabel)


(RENAJUNE) Quem é Isabel Ferreira, pessoa, mulher?

(ISABEL FERREIRA) - A Isabel Ferreira é uma mulher guerreira.  Que muito cedo a vida ensinou-lhe, a lutar por tudo quanto não está ao seu alcance. A sua  luta pela sobrevivência ensinou-a, a guerrear , para conseguir o que deseja na vida. É  preciso ter garra e fúria para avida, A moleza em nada ajuda. A Isabel aprendeu a correr riscos , e a nunca se surpreender com o inesperado....

(RENAJUNE) Você teve uma infância muito difícil, no entanto deu a volta por cima e conseguiu mudar sua realidade. Quais elementos contribuíram para que você torna-se hoje, esta pessoa reconhecida e de grande importância de uma comunidade?

(ISABEL FERREIRA) - Sempre ouvi que ao nascer ninguém escolhe para vir ao mundo, nem os pais que desejamos.

A minha concepção foi problemática para os meus pais, porque eram jovens. O meu pai, achava que era muito jovem para ter filhos, acho que eu, já  vinha para o mundo com o instinto de guerreira. O meu pai diz que a minha mãe teve abortos espontâneos com muita frequência e quando eu concebi, resisti.  

É incrível como muito cedo, aprendi que lutar é a sina de todo o ser humano, só que uns lutam muito mais que outros. Eu nunca dei tréguas. Se a vida quis ser dura comigo, encontrou no meu dorso uma grande resistência.

A luta e a tenacidade, a humildade e o  não desesperar, ante as dificuldades, são os elementos que constituem o meu modo de vida, talvez por isso eu vou à busca de tudo quanto idealizo lutando, e venço, com a graça divina!

 (RENAJUNE) Qual o aprendizado e lição vivenciada ao Ingressar no exército, e qual a sua contribuição na defesa da sua pátria neste período?

(ISABEL FERREIRA) - Ter ingressado no exército foi uma bomba que rebentou em todo o meu ser.  Repare que eu vivia num internato religioso muito austero, estou a falar em 1974/1975 e aquando da descolonização, ouvia-se falar sorrateiramente de guerrilheiros como Ge Guevara , Fidel e de ditadores como Pinochet.

O que se ouvia na época, no meu país era: Liberdade total e completa, Liberdade, Pátria ou morte, ideais políticos que mexiam com uma jovem que tinham acabado de sair internato, devido a descolonização. Muitos sacerdotes e religiosas saíram de Angola e deixaram as internas que protegiam abandonadas. Cada pai ou mãe, ia a busca do seu protegido.

Naquela altura, 1975/1975 eu perdi o contacto com o meu pai e a minha mãe, a via "foi zarpar", para o exército . Na guerrilha, a convivência, todos nós, erámos donos de nós mesmos. Ninguém perguntava nada, apenas queríamos defender a pátria e acima de tudo respeitar as regras militares . Foi uma época frutuosa para mim. Aprendi o valor da liberdade e da emancipação, do verdadeiro valor da Bandeira, do solo pátrio e de tudo o que envolve o nosso ser, enquanto personalidade jurídica.

A minha contribuição nesta época foi o de ter participado na luta de libertação do meu país, acreditava num sistema socialista onde todo teriam igualdade em termos de oportunidade e ascensão.  Pura ilusão a minha!  Enganei-me .... Não me arrependo dos passos que dei, só que sinto uma profunda tristeza, quando vejo pobres deambulando pelas ruas, enquanto os  ricos cegaram-se nos modos e nas atitudes... Mas é a vida... Pobres sempre os tereis é biblico!

(RENAJUNE) Antes se dedicar à literatura, você trabalhou como professora em escolas de ensino primário, e ainda lecionou na área de deficiência mental. O que significou estas experiência para sua vida e carreira?,

(ISABEL FERREIRA) - Na guerrilha nós tivemos uma missão para além de defender a pátria angolana: era a de alfabetizar os soldados que não sabiam ler, nem escrever. E para além disso íamos colher algodão, colher o café, tudo para que a nossa vida na ( mata)  não fosse entediada  sem ocupação, dai que quando deixei o exercito ,  inscrevi-me para dar aulas. Eu já estava no quinto ano do liceu e naquela época era considerada um nível que pudesse dar aulas.

A educação  serviu de base para orientar  os meus filhos. Estávamos num período muito difícil de Angola. Ausência de professores,  com a descolonização os técnicos abandonaram o nosso país. E então, era preciso cobrir as lacunas no campo educacional.

Fui professora  muito anos, dei aulas as crianças. Dei  aos meus alunos, aquilo que não recebi dos meus pais: Amor, carinho, ternura e orientação pedagógica. E como se isso não bastasse consegui orientar os meus filhos , para um método de ensino que permitisse a aquisição de conhecimentos básicos e sólidos, para enfrentar o futuro... Aliás dizia Aristóteles:- A Educação tem raízes amargas, mas os frutos são doces.

A  área do ensino especial, foi o ponto alto da minha carreira, com estas crianças deficientes, aprendi que a nobreza humana se encontra na pessoa deficiente. A forma abnegada que travam para enfrentar o dia a dia, mudou o meu olhar... Eu fui professora de crianças com síndrome de DOWW ou seja com Mongolismo e sempre que uma criança conseguisse escrever o seu nome, eu via o brilho no olhar de contentamento nos pais , a criança se sentia acolhida e realizada. Uma passagem fluida de positividade, que abandonei, porque sou  como sou como a lua... Com fases, minguando   de inquietações... E como a Educação em todo mundo... a carreira dos professores primários, não é valorizada.

Foi de grande significada para mim vida ,porque passei a compreender melhor o mundo infantil com a sua inocência e com as expectativas que depositam aos adultos. É tão reconfortante, ver uma criança a construir as primeiras letras e junta-las em palavras.  Todo este percurso foi favorável, porque acompanhei a formação dos meus filhos e hoje vendo-os formados todos eles , vejo o quanto foi bom ter sido professora.

(RENAJUNE) Quando surgiu o gosto pela literatura?

(ISABEL FERREIRA) - A leitura foi sempre o meu refúgio! Cedo aprendi a ler e fiz da leitura minha companheira, e uma coisa puxou a outra. Quando leio ou escrevo nunca me sinto só.

Foi isso que me reconfortou nos vários tempos de sofrimento ainda menina.

Lembro-me que tinha um diário onde  escrevia o que de  negativo me acontecia.  Eu escrevia tentava compreender... ou então, perguntava ao diário, é claro que este nunca me respondia, mas deixava lá tudo! Uma espécie de exorcismo da minha dor e do abandono que sofri. Escrever para mim, é brincar com as palavras de um modo inocente...é ser livre, escrever para mim é um brincar  é multiplicar a minha vida, noutras vidas.

(RENAJUNE)Você já esteve em Salvador, gostaríamos de saber o que chamou mais atenção nesta visita, e qual a sua concepção quanto a similaridade cultural entre a Bahia e Angola?

(ISABEL FERREIRA) - O que mais me chamou atenção foram as pessoas e os lugares. Senti-me em casa.  Na rua eu via o caminhar das pessoas, o estar das mulheres baianas vendendo Acarajé, é muito similar a  mulher zungueira, da minha Banda... Há África na Bahia, e uma África muito angolanizada... Houve um enamoramento entre mim e a Bahia. O Pelourinho, os labirintos das suas ruas, tudo me fez lembrar a minha Luanda antiga. O modo afável de ser do baiano é muito parecido com o angolano. Há leveza no estar do baiano , e é isto, que  mesmo distante, me conquista.

(RENAJUNE)“O Guardador de Memórias”, é uma importante obra de sua autoria, a qual depertou grande interesse de estudos em muitas universidades mundiais, e diferentes criticos literarios como: Brasil, Portugal e Canada, sendo que Angola é retratada nesta obra como “uma sociedade plastificada”. Desta forma, qual o grande destaque deste livro que despertaram interesses a este publico leitor e qual a grande contribuição desta obra para Angola?

(ISABEL FERREIRA) - falar do Guardador de Memorias é um pouco complexo, perturba-me. Sou  autora  da obra e enaltecê-la é sempre desconfortante, dá-me uma certa inquietude e desconfiança à mistura. O livro foi bem recepcionado nestes países que cita,( Brasil, Canadá , Chile e Moçambique...) mas chegando a Luanda , após o lançamento fui agredida  na via pública  tendo sido esfaqueada por cinco homens.

Terá sido um aviso? Nunca cheguei a saber. O livro perturba, quem nele se revê...Claro que o livro, foi um sucesso, mas quase paguei com vida.

Em Luanda, numa tarde as quinze horas numa rua movimentada eu fui violentamente agredida por cinco homens covardes. Foi muito triste... Mas aconteceu.

Foi neste dia que senti que minha missão é escrever ...

(RENAJUNE) Vivemos em um País de desigualdades sociais e raciais, você acredita que este cenário pode ser modificado? Como poderemos contribuir para essas mudanças?

(ISABEL FERREIRA) - A luta por uma equidade social, será sempre o lema da classe dominante. O poder em alguns governos consegue submeter a maioria... Incrível! Contudo , os artistas devem com as suas obras confrontar a sociedade para um mundo mais humano, menos desigual!

(RENAJUNE) Você é a favor da política de cotas para negro nas universidades publicas?

(ISABEL FERREIRA) - Sim , sou a favor!  É uma forma de ajudar, de possibilitar quem não tem meios para ter acesso ao ensino universitário, não só aos negros.

Devemos cultivar o amor, e nunca a indiferença, a equidade , refazer a história com um cântico novo. O negro já sofreu muito precisa de estudar, conhecer para onde vai. (...) Contudo, há brancos que também sofrem muito, dai a necessidade da generosidade.  As quotas deviam estar ao alcance de pessoas que significativamente necessitam:

(RENAJUNE)Qual a mensagem que Isabel Ferreira, mulher forte, determinada e com acentuada identidade cultural, deixa para nosso público leitor do RENAJUNE?

(ISABEL FERREIRA) - Quero agradecer a Renajune, na pessoa da Flávia Néris, por me convidar a este bate papo de reminiscências...

De poder exprimir, o que penso e dar o meu contributo a sociedade onde estou inserida. De deitar o meu olhar  para fora, porque não quero somente, olhar para dentro...

O facto de ser uma mulher que edita os seus livros independente, de qualquer estereótipo, faz de mim uma autêntica guerreira. Quase sempre, em meus escritos convido o leitor  a repensar a Liberdade que anda abraçada à responsabilidade. E... será essa, a responsabilidade que sinto em modificar ou contribuir, para a mudança deste nosso mundo! Deixá-la melhor, ou senão contribuir humildemente para a sua melhoria!

 Isabel Ferreira

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