sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Entenda o Mais Médicos, a classe média e os resmungos de classe - Parte 1

O Programa Mais Médicos, instituído pelo Ministério da Saúde no atual governo pop-lulista (ou seria pós-lulista?), vem rendendo muita discussão e, inclusive, insatisfação. Mas insatisfação a quem? Como dizem, o buraco é mais embaixo que a mera discussão informal parece pressupor e, evidentemente, envolve aspectos que vão do jurídico, contrapondo interesses sociais e de classe, até descambar em balbucio, resmungos e insultos político-partidário.

Claro, muita coisa já se publicou. E mais ainda se falou, às claras e às escondidas. A Folha, e por que não a Folha, recentemente publicou a opinião de um especialista sobre a suposta precipitação do programa. Outros, trajando com ares de sacerdócio o jaleco alvíssimo, suados e exaustos da infrutífera luta pela hegemonia diagnóstica nas equipes multiprofissionais, doravante Ato Médico, empinam o nariz e disfarçam o gesto de quem comeu e não gostou.

Comeu, não gostou e, ainda por cima, argumentou. Entenda que o argumento era, em geral, o seguinte: "investir em saúde não é só importar médicos" e que "é demagogia contratar médicos sem antes oferecer infraestrutura". Vamos aos finalmentes: que os argumentos não se sustentam. Se a afirmativa primeira é verdadeira, dela não necessariamente se segue que o aumento do quadro de médicos na saúde pública não seja relevante. A despeito de ser um programa com viés eleitoreiro (e este é absolutamente um dogma inquestionável muito enfatizado pelos sacerdotes de jaleco), devemos ao menos e ao mais considerar o real déficit no quadro de profissionais médicos, clínicos ou especialistas, no nosso Sistema Único de Saúde. "Claro que é muito melhor, quem sabe, talvez, já ir pensando num mercado de trabalho Top Sírio-Libanês do que trabalhar em um Posto de Saúde alugado pela prefeitura de Cabrobó no interior nordestino", assim pensam e caminha a humanidade.

Há, também, no argumento médico, geralmente o mesmo pensamento médio da classe média, uma deturpação forte do que seria verdadeiramente o Mais Médicos. Qualquer pessoa minimamente interessada em uma discussão que exceda o sóbrio palanque da mesa de bar, pode chegar a essa conclusão (sobre a tal deturpação que paira na boca média...), para tanto buscando o DOU de 9 de Julho de 2013. No Cap. IV, lê-se que o Programa já faz parte de um amplo pacto no âmbito da Saúde que visa maior investimento em infraestrutura dos hospitais e unidades de saúde. Igualmente, houve prioridade institucional na contratação de médicos brasileiros formados no Brasil e, em segundo lugar, a contratação de médicos brasileiros formados no exterior. Apenas em terceiro, e último, que se possibilitou como alternativa a contratação de médicos estrangeiros, caso o número dos anteriores tenha sido insuficiente. Mas a insatisfação do pensamento médi(c)o imperou, distorcendo "à torto e à direita" as informações, coisas da Veja e Folha, formadoras de opiniões burras. Por mais paradoxal que pareça e seja, falta sim ao leitor brasileiro o hábito de ler.

O fato é que "infraestrutura" é muito mais do que uma sala com equipamentos técnicos de ponta. Tive a oportunidade de observar a discussões entre médicos experientes, em geral universitários, para perceber que o diagnóstico clínico exige raciocínio clínico, que é crítico. Que não se descola dos determinantes sociais e ao universo cultural daquele que o procura. Que o assiste e compreende, na dimensão do atravessamento dos afetos, a impossibilidade de uma atenção desumanizada. Essa, sim, seria a tal da infraestrutura necessária e, porque não, suficiente na atenção básica.

Inclusive, é importante aqui ressaltar que o aprimoramento da atenção básica (nível de complexidade da atenção à saúde da qual se encontram os postos, as unidades, as equipes de saúde da família, etc.) é a destinação e o fim do Programa Mais Médicos. Programa onde o médico estrangeiro não está desamparado, mas assistido desde que chega (não pelas sacerdotais Patricinhas de Beverly Hills que vaiaram os médicos cubanos). Esta assistência inclui, por um lado, acompanhamento de tutores bolsistas, vinculação com a universidade, cursos de aprimoramento do português, bem como da logística, dos princípios e das diretrizes do SUS. Curioso que os mesmos médicos brasileiros que reclamam da vinda de estrangeiros são os mesmos que, quando priorizados na contratação, não se inscrevem, faltam ou desistem como boicote manifesto ao programa. Muitos médicos reclamaram do salário, afirmando sua inferioridade frente ao padrão do clínico brasileiro: só esqueceram de enfatizar a inferioridade salarial de toda a equipe de saúde se comparado ao salário do médico, discussão que retoma a desigualdade de classes (sociais e profissionais) nestas terras coloniais.

Sim, a política tem motivos eleitoreiros, mas não menos reais que os motivos de seu Antônio e a dona Maria que só consegue marcar um médico lá pras bandas de 2014. Não foram poucos os médicos que choraram pitangas quando se colocou a necessidade de se revestir o milionário investimento público no universitário em medicina em uma prática profissional obrigatória à população usuária do SUS (não apenas choraram, mas também derrubaram em um impressionante lobby esse "importúnio" que é obrigar essa boa gente nobre a atender essa boa gente pobre). Mas ninguém quer saber que a atenção básica responde à 80% das necessidades da população, "quero mais é conseguir minha peixada no Sírio-Libanês". Do mesmo naipe discursivo que a médica brasileira que postou em seu Twitter que a médica cubana tinha cara de empregada. Mas não troco por nada a minha médica com cara de empregada do que por essa outra com cara de pau de um Beverly Hills tupiniquim.

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