quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Da análise sociológica ao corpo morto: retratos do objetivismo e do relativismo no jornalismo baiano

Todos que habitam essas terras soteropolitanas acompanharam, nos noticiários, a médica que assassinou com seu carro, por conta de uma briga de trânsito, dois jovens sobre uma moto. O fato, muito noticiado, quase culminou com uma manobra jurídica, quando os médicos do hospital particular ao qual a médica permanecia internada recomendaram mais 48 horas de internação, até o momento em que os médicos legistas identificaram a improcedência técnica desta solicitação.
Mas a questão, muito polêmica, não se esgota no fato em si e, a meu ver, reside no comentário de um terapeuta, que por sinal resolveu comentar o fato. Seu comentário, evidentemente, suscitou a movimentação de um verdadeiro aparato maquínico televisivo: reporteres e reportagens, jornais, entrevistas, câmeras, comunicandos e etc.
Aos que quiserem buscar o texto dele por si próprio, que o faça, não serei eu que irei referenciá-lo aqui. Mas não poderia, entretanto, deixar de oferecer a minha opinião, não sobre o texto propriamente, mas sobre as diferentes práticas discursivas e os diferentes saberes que são movimentados em dadas circunstâncias, mas que na ausência destas, movimentam-se outras práticas e saberes.
Em resumo, o que o terapeuta defende, embora sem explicitamente defender, é o relativismo na interpretação deste fato em específico, recorrendo a explicações sociológicas, psicológicas, cognitivas e afetivas, que se vê no discurso em voga o uso recorrente de termos como "e se fosse sua mãe?", "projeção psicológica social...", que poderia se tratar de uma possível "hipervigilância", etc., embora haja um certo receio, também recorrente no texto, mas inteiramente plausível, que se expressa em frases como "que fique claro, nada justifica mortes!".
 Meu parecer: ver diferentes opiniões de um mesmo fato é importante. Ainda que um fato seja complexo, há de se ter cautela com o relativismo. É importante determinar quais os fatores sociais, econômicos, jurídicos, políticos e étnicos estão sustentando o discurso da "hipervigilância" e do "e se fosse sua mãe". Porque algumas práticas são tidas como mais complexas do que outras? Porque alguns discursos de determinados segmentos socioeconômicos e de classe (médica, alta...) articulam diferentes saberes (cognição, na hipervigilância, afetivo, no argumento do "desequilíbrio emocional", no "e se fosse sua mãe...?"), enquanto os mesmos crimes, com mesma tipificação (doloso), podem evocar apenas um ou dois saberes (o discurso jurídico penal e moral) quando cometidos por outros segmentos socioeconômicos, de classe, étnicos? Por que para uns, o relativismo da crítica social e da identificação afetiva, enquanto que para outros resta o objetivismo intratável, indigesto, do Na Mira? De maneira mais vulgar, pergunto: quais agentes sociais destinam o discurso da análise sociológica e quais são aqueles olhares que incidem o riso e o escárnio do corpo morto em pleno horário de almoço?

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